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às vezes, procura-se insistentemente algo para escrever mas não surge nada. são dias secos, da imaginação e do desejo. do que todos falam, não vale a pena repetir. do que não falam, as forças andam fracas para descobrir. e, por vezes, ainda lemos algo que nos esmaga, seja pela beleza ou pelos efeitos que provoca. por isso me confesso: o elogio ao amor, de Platão, aniquilou-me e desde então ainda não consegui recompor-me. (e que delicia é este estado).

Na edição de ontem do Público, Alexandra Lucas Coelho assinava um artigo intitulado “Como os livros pagam para serem vistos“. Não causa grande surpresa que as montras, as estantes, o balcão e outros espaços das livrarias sejam comprados pelas grandes editoras. O que me preocupa mais é a ignorância do consumidor. E quem não quiser esbarrar com um escritor de cartão tem sempre a possibilidade de ir às pequenas (mas grandes nas vontades) livrarias. O artigo completo pode ser encontrado no site do Público.

o elogio do amor

O Diário de Notícias e o Jornal de Notícias andam a distribuir uma colecção de livros intitulada Os Grandes Filósofos. Curiosamente, não consegui encontrar no site dos dois jornais qualquer referência a esta colecção. No mínimo, estranho! O primeiro tomo da série - Platão - já saiu e teve como preço de lançamento a módica quantia de 1,99 euros. O Banquete, Fedro, Apologia de Sócrates/Críton são as obras que praticamente nos ofereceram. De referir ainda, que a tradução pertence às Edições 70. Ontem, deleitei-me com o regresso ao Banquete. Ficam aqui algumas passagens,

Mais, é essencial que os homens que se dispõem a viver uma vida plenamente bela se capacitem deste facto: nem a nobreza de parentesco, nem os cargos de alto prestígio, nem a riqueza, nem qualquer outra coisa são capazes de inspirar feitos tão belos como o amor (p. 39)

Aí está, por minha parte o que tenho a declarar-vos sobre o Amor: ele não é só o mais antigo e venerável dos deuses como o que tem mais poder para levar os homens a alcançar o mérito e a felicidade, tanto na vida como após a morte (p. 43)

Assim acontece quando amamos: nem toda a espécie de amor é bela e digna de elogios, mas apenas aquela que nos incita a amar com nobreza (p. 44)

Logo, amanhã e depois continuarei a deliciar-me com a jantarada.

aqui tinha referido a importância das editoras disponibilizarem gratuitamente alguns capítulos dos livros. Vai daí, descobri com algum agrado que a Cavalo de Ferro já o começou a fazer. E agora também disponibiliza uma pequena biografia do tradutor (espero não me estar a enganar, mas não me recordo de lá encontrar isso antes). O importante é que a moda pegue e as outras editoras comecem a fazer o mesmo. Todos saem beneficiados.

o prazer de ler

O prazer de ler é qualquer coisa-assim. É chegar a casa, exausta, mal poder abrir os olhos de uma semana de tanto trabalho, deitar-me, abrir o jornal e recuperar o sentido da vida. Tudo pode correr mal mas se tivermos ali as letras, o conhecimento, o cheiro do papel, tudo começa a correr melhor. O poder de um jornal, de uma revista, de um livro, é terapêutico e se muita gente substituísse os xanax’s pela leitura, a vida correria melhor. É uma impressão utópica, quiçá influenciada pelo leitura do dossier do Público dedicado ao Maio de 68. Tentei ver depois o documentário da RTP 2 “Geração 68″ mas o cansaço levou a melhor. É que apesar do poder inabalável das imagens, as letras continuam a levar a melhor sobre mim.

Na Barateira, temos grande autores a preços de chuva. Mas é em Lisboa, onde ainda existem alguns alfarrabistas que a bem ou mal lá se vão aguentando. Em Braga, é quase o deserto. Tirando duas casas, não estou a ver mais nenhuma. E numa, a secção de livros é tão diminuta, que a loja é mais de velharias do que propriamente de livros. Na outra, as pechinchas são muito poucas e a oferta recai sobre 1ª edições a preço de ouro.

Mas, no Porto e Lisboa, é possível encontrar uma boa oferta de alfarrábios. Nunca deixem de entrar num alfarrabista, a menos que não tenham trocos, porque é deveras frustrante descobrir bons livros a preços simbólicos, não poder comprar, regressar no dia seguinte e verificar que eles já partiram. A dor, meus amigos, é indescritível. A Maria Ondina Braga perseguiu-me, por exemplo, durante um ano (I, II). E não queiram ser inquietados por um fantasma literário. Para quem sofre do Mal de Montano, é do pior que há.

A revista LER, dirigida por Francisco José Viegas, saiu no dia 23 de Abril. Na blogosfera gerou-se uma onda de divulgação e comentários extremamente positivos. Nada a apontar: a minha 1ª impressão também foi relativamente boa. Mas como leitora da LER, espero mais, quero mais, muito mais. Por isso, deixo alguns apontamentos,

1. Do que mais senti falta foi da reportagem. A LER traz duas entrevistas, uma selecção dos 50 autores mais influentes do século XX, algumas notícias mais desenvolvidas… mas não traz reportagem. E eu gosto de reportagens alargadas. Numa revista mensal, espero encontrá-las.

2. Tendo a noção de que é uma revista mensal e por isso corre o risco de trazer algo já divulgado, a LER aqui não surpreendeu e não trouxe grandes novidades para quem acompanha as notícias literárias. A notícia da livraria Lello, a página da Booktailors, a Boutique…

3. Eu gosto de crónicas, muito, mas a nova LER traz uma avalanche de cronistas que me assustou. Não querendo apontar nomes ou ser desagradável para alguém, louvo os novos nomes e torço o nariz aos mesmos de sempre que já leio bastante em outros meios de comunicação.

4. Do que não gostei nada foram das 4 páginas de “mais livros saídos” e das citações que colocaram para os recomendar. Gosto da crítica, gosto de sentir que me recomendam algo que já foi lido. Preferiria que me indicassem menos livros mas que estes viessem acompanhados de comentário. A mim não me diz quase nada meia dúzia de linhas retiradas do livro. Partindo do princípio que terá de ser assim, pelo menos, poderiam organizar os livros por género. Colocar os ensaios todos seguidos, depois os de história, etc. Andei por ali perdida.

E é só. A revista LER é boa. Mas quero mais.

O absurdo comemora hoje 2 anos de existência. E o mais interessante é que eu não me lembrei. Hoje, por acaso, reparei que existia um novo link para o absurdo, aqui. Foi o blog ‘Aniversário de Blogues‘ , criado para “quem nunca se lembra das datas mais importantes”, a lembrar-me do próprio aniversário. Fica desde já o agradecimento. E para assinalar os 730 dias de blogosfera e as 68 mil visitas deixo uma música de que gosto muito: For My Fallen Angel dos My Dying Bride.

As I draw up my breath,
And silver fills my eyes.
I kiss her still,
For she will never rise.
On my weak body,
Lays her dying hand.
Through those meadows of Heaven,
Where we ran.
Like a thief in the night,
The wind blows so light.
It wars with my tears,
That won’t dry for many years.
“Loves golden arrow
At her should have fled,
And not Deaths ebon dart
To strike her dead.

“(…) o acto de leitura é profundamente solitário. Separa o leitor do resto da sala. Encerra a totalidade da sua consciência por trás de lábios imóveis. Os livros bem-amados são a sociedade necessária e suficiente do indivíduo que lê a sós. Fecham a porta às outras presenças e tornam os intrusos os demais. Em suma, a leitura reclama silêncio e um isolamento feroz (…) A colheita e recolha nos sentimentos no interior do silêncio de quem lê são atitudes duvidosas.” George Steiner

Nos tempos que correm, o silêncio está morto. Falo do silêncio interior e do próprio silêncio da sociedade. A leitura é um acto extremamente solitário e silencioso. Com a morte do silêncio, a leitura quase morreu. Há os que sobrevivem, os teimosos, que não se rendem à morte do silêncio, que preferem um bom livro ao ruído impertinente da vida exterior. De acordo com vários sociólogos, a pós-modernidade é caracterizada por um ruído permanente, onde a música assume um papel primordial. E o silêncio? Onde pára o silêncio? O indivíduo não consegue estar só, precisa a todo o custo da televisão, da música, da rádio, dos amigos, precisa de ruído. Daí a crescente dificuldade em ler um livro, em se concentrar. O que é terrivelmente assustador. O Homem matou o silêncio. E o silêncio é condição essencial para o estudo, a leitura.

Nos últimos tempos tenho-me aproximado cada vez mais da noite, do momento em que o mundo pára, e se consegue finalmente ouvir e estar em silêncio. O silêncio, tão maltratado, é uma condição essencial não só para ler mas para se conseguir viver (não sobreviver).

[citação: George Steiner, in No Castelo do Barba Azul, Lisboa: Relógio d’Água, 1992]

Poll the Fools

O site chama-se Poll the People e anda à procura do melhor livro, álbum e filme do mundo. Neste momento, o pódio literário é ocupado por,

1 - THE CATCHER IN THE RYE (J.D. Salinger)
2 - TO KILL A MOCKINGBIRD (Harper Lee)
3 - MEMOIRS OF A GEISHA (Arthur Golden)
4 - WUTHERING HEIGHTS (Emily Bronte)
5 -1984 (George Orwell)

Nada mau, considerando ali o número 1 e 5. A surpresa (ou não-surpresa) vem quando reparamos que Dan Brown está à frente, por exemplo, de Aldous Huxley. Neste momento, este top tem tanta credibilidade e seriedade para mim como ver o Santana Lopes a recandidatar-se à liderança do PSD. Mas não é só: quem quiser comprar algum livro é curiosamente reencaminhado para a Amazon. E como se ainda não bastasse, algumas celebridades iluminam-nos com o seu Top5. O que vale é que isto é uma brincadeirinha… Já imaginaram ver os Anjos e Demónios eleito como o melhor livro do mundo? Não, o Fim do Mundo ainda está longe.

O absurdo é um blog dedicado quase exclusivamente à literatura. E, ontem, que se comemorou o Dia Mundial do Livro, não houve neste espaço literatura para ninguém. Os programas de rádio sobre livros multiplicaram-se, os jornais e os bloggers assinalaram o dia, a televisão não sei porque não a liguei… Não venho com o discurso de “Dia Mundial do Livro deveria ser todos os dias, blá, blá, blá”. Não, gosto destes dias especiais. E gosto de todo o frenesim que se gera à volta na imprensa.

Ontem, a data não se assinalou aqui porque a autora passou o dia a ler e ouvir falar de livros e, muito especialmente, de volta da LER. Brevemente, tecerei algumas impressões sobre a revista. Para já fica a sugestão: porque não criam uma assinatura com desconto? Não é que me importe de gastar 5 euros com uma revista mensal porque, como diria um amigo, gastam-se 5 euros numa merda qualquer e nem se dá conta. E aqui sei que é para a LER. Mas receber a revista em casa e usufruir de um desconto, seria ainda melhor.

Post-Scriptum: a autora desta casa anda a dormir de pé. padece da falta de algumas horas de sono que serão corrigidas este fim-de-semana prolongado. a Ler oferece um sistema de assinaturas, sim senhora.

Falta 1 dia

para o Dia Mundial do Livro chegar e com ele a nova LER.

Algumas páginas já podem ser descobertas aqui e ali. A apresentação está marcada para hoje no Belém Bar Café (junto ao Museu da Electricidade, em Lisboa), a partir das 21h00. Francisco José Viegas revela que a nova Ler “não é uma revista de literatura, mas de livros”. Amanhã, mal ponha um pé fora de casa irei descobrir…

As iniciativas que vão marcar o Dia Mundial do Livro um pouco por todo o país podem ser lidas no renovado Rascunho.

Primeiro sabe-se que os hábitos de leitura dos Portugueses estão a crescer. Depois, que o inenarrável O Segredo de Rhonda Byrne foi o livro mais vendido de 2007. Não sei se deva ficar contente ou preocupada. Para mim, O Segredo nem para calço de mesa serviria.

Não é por nada, sei que os escritores têm de fazer pela vida, mas cada vez me custa mais encontrar sempre os mesmos nomes na imprensa, a dizerem sempre o mesmo. Os próprios deveriam resguardar-se mais. Porque mesmo que queiram vender o seu peixe, também passam uma imagem, um rosto, que acaba por cansar. Há um autor português de que gostava muito mas à força de tanto me cruzar com ele (seja em tertúlias, seja na imprensa) já não consigo ler um livro seu. Isto não invalida a potencialidade do livro mas provoca um enjoo difícil de ultrapassar.

Antes da polémica estalar no Theatro Circo, realizei uma entrevista ao director artístico da Companhia de Teatro de Braga (CTB) e administrador delegado do Theatro Circo, Rui Madeira. Na altura, ainda não sabia do rastilho e, por isso, a conversa centrou-se no teatro. Fica disponível online aqui.

O teatro enfrenta actualmente diversos problemas que se verificam não só em Portugal mas também no resto do mundo. Durante a ditadura, os criadores não conseguíam fazer uma série de peças porque eram censurados. Hoje, já não vivemos em ditadura mas esses textos continuam por fazer porque não existem políticas culturais de sustentação financeira. Actualmente é muito difícil encontrar uma companhia a levar à cena Shakespeare ou Moliére. Os jovens dramaturgos já não escrevem textos com doze personagens mas apenas com duas ou três. E isto há-de pagar-se caro porque significa que existe um abaixamento do nível da cultura teatral. Os problemas não estão limitados ao país ou cidade mas ao mundo e a situação em Braga não é diferente. Rui Madeira

Já lá vão duas semanas de trabalho intenso e pouca leitura. Mas, ontem, deu para descontrair com um showcase dos Electric Willow, na Fnac de Braga, onde tocaram algumas músicas dos novo álbum Nothing’s Ever Good Enough.

A entrevista e crítica ao segundo disco vão ser publicadas no Rascunho que regressa às lides culturais na segunda (21 de Abril). Os Electric Willow vão andar este fim-de-semana pelo norte e se tiverem oportunidade não deixem o som destes meninos escapar.

19 Abril
17h00, Fnac Sta Catarina (Porto)
22h00, Fnac Norte Shopping (Matosinhos)

20 Abril
17h00, Fnac Gaia Shopping (V.N. Gaia)

Ontem, a manchete do Correio do Minho era “Feira do Livro: expectativas superadas”. Não li a notícia, só vi a capa mas parece-me excessivo. Também não sei muito bem quais eram as expectativas. O que sei é que o orçamento para esta edição da feira voltou a emagrecer, que se vendeu pouco e que a Feira do Livro de Lisboa é única que dá lucro (ouvi, não tenho dados para o confirmar).

Não sei quais eram as expectativas mas se eram fracas com certeza que foram superadas. O que me chateia são estes discursos institucionais do vira o disco e toca o mesmo. No início é um grande alarde, no fim correu tudo bem e o balanço é positivo. Porra! Não estão fartos de balanços positivos? Já não me lembro de ouvir alguém dizer no fim de um evento que o balanço é negativo. Se corre sempre tudo bem, porque se queixam todos os anos da fraca afluência, do baixo orçamento, da ausência de alguém do ministério da cultura, etc?

Adobe Audition v3.0

Os leitores do absurdo estão mal acostumados, bem sei. Habituaram-se a uma actualização quase diária. E agora andam aborrecidos por não encontrarem no absurdo posts novos todos os dias. Não é que a vontade tenha diminuído. O tempo é que encurtou. Mas não só: a domesticação do Adobe Audition v3.0 tem levado a autora às ruas da amargura e do desespero. O absurdo promete regressar, se depois do Audition a autora ainda tiver estaleca para enfrentar o peso-pesado Adobe Premiere.

O penúltimo dia da Feira do Livro de Braga contou com a presença de Francisco Duarte Mangas, Jorge Reis-Sá e José Luís Peixoto. O tema da tertúlia era “Literatura e Compromisso Ético”.

Francisco Duarte Mangas abriu a sessão com a história do ladrão de livros raros. Jorge Reis-Sá prosseguiu com um ataque feroz à postura da Leya na organização da Feira do Livro de Lisboa, sabendo que isso lhe poderia custar caro. E, finalmente, José Luís Peixoto começou a sua intervenção com o professor Pardal.

É por isso que gosto de tertúlias com os escritores: anda-se ali à volta e pelo meio contam-se coisas engraçadas.

Na mochila veio a Arte do Regresso de Amadeu Baptista, Cadernos do Subterrâneo de Fiódor Dostoiévski e No Castelo do Barba Azul de George Steiner.

é do cansaço

o que e vou dizer é perigoso, não tem grande reflexão e ocorreu-me repentinamente mas vou dizer à mesma:

imaginemos que o orçamento dedicado à cultura seria manifestamente suficiente e todas as entidades culturais teriam bolsos e mãos largas. o resultado seria catastrófico. é da privação e necessidade que surge a vontade de criar.

artistas com talento poderiam aproveitar a oportunidade para fazer ainda mais. mas a nível global, acredito que a fasquia cultural iria drasticamente baixar.

como se a cultura precisasse da privação e dificuldade para produzir genialidades (e precisa, tal como o Homem). com dinheiro, o ânimo perdia-se. passamos a vida a queixarmo-nos, quais velhos do restelo, mas de vez em quando dá vontade de dizer “ainda bem que o dinheiro é pouco”.

ps - é óbvio que se o orçamento destinado à cultura engordasse seria óptimo para todos. a situação que retrato é meramente idealizada. o artista é muito maltratado no nosso país. e nem é preciso ir muito longe: a precariedade de trabalho dos actores é gritantemente assustadora.