Fartei-me de literatura. Enchi-me tanto que andei uns dias a ignorar por completo os livros. Li-os pouco, desprezei-os ainda mais. Pelo meio, perdi-me de amores pela zenit 3m, depois de comprar uma igual à do menino que anda por aí a voar à deriva. De um rolo de 24 aproveitam-se apenas três. Esperam-me, portanto, muitos disparos (e isso agrada-me) até conseguir dominar a máquina de arremesso que nasceu na Rússia entre 1962 e 1970.
Podem ver as restante no meu Flickr.
Porque resolveu a Quetzal colocar nas livrarias uma edição especial de 2666 que nada tem de especial a não ser uma capa branca a dizer “edição especial”? É igual à capa da centena de livros que imprimiram propositadamente para o lançamento com papéis de gramagens e cores diferentes.
Mas nesta edição especial que nada tem de especial não encontramos este pormenorzinho dos papéis. Também não existe qualquer numeração dos exemplares.
É só para o leitor se sentir especial?

dias de muito trabalho, mil e uma coisa pendentes, powerpoints, chás, um chocolate quente prometido, mas até ver, gastam-se os dias e trabalha-se uma, duas, três… até chegar às nove e correr para o quente da cama e dos livros. nos entretantos, abandona-se a dança ao verão e parte-se para os cobertores, a lareira, as castanhas e a conversa até ser dia e regressarmos novamente ao emprego e pensarmos que era tão bom só quando estudávamos.
das leituras nada tenho escrito porque ocupei as primeira noites de outono com as Cartas a Lucílio de Séneca que tinha começado a ler, mas depois abandonei à paz dos mortos.
como ninguém vive só de Sénecas e outros que tais, comecei ontem a ler A Paixão Segundo G. H. de Clarice Lispector. embora reconheça que o estilo intimista, voltado para o interior, me seja muito querido, ainda não sei se estou ou não a gostar. e pronto, era só mesmo isto que tinha dizer.

A Verbo acaba de lançar no mercado a colecção dos Cinco, da Enid Blyton. Pelo menos, parece. Eu pensava que era uma reedição, mas quando me deparei com o título Os Cinco – O Caso dos Piratas de DVD, alguma coisa me pareceu mal… No tempo da Enid Blyton ainda não existiam DVD’s e logo me ocorreu que provavelmente resolveram adaptar o título. Mas eu, que devorei a colecção completa durante a minha adolescência, não me recordava de ler livros tão magrinhos. Será que para além de terem adulterado os títulos, também cortaram os livros, condensando-os?
Não. Um exame redobrado da capa diz-nos que o autor é “Enid Blytons”. Estranho. O mistério é desvendado na ficha técnica. Os Cinco – O Caso dos Piratas de DVD é nada mais nada menos do que inspirado nos Cinco da verdadeira Enid Blyton. Querem vender gato por lebre? Mais um engodo.
Uma proposta de trabalho que, para além do currículo e de uma carta de apresentação, pede um talão de compra do livro Raparigas de Sucesso – Como vingar na carreira, de Hannah Seligson.

A editora Marvel Comics acaba de lançar a versão 3.0 da Marvel Digital Comics Reader. Na nota de imprensa, pode ler-se que a nova versão promete uma experiência digital completamente inovadora. O leitor pode ler os comics numa só página, em duas, ou em tiras normais; tem disponível o zoom para ver os pormenores que deseja; tem acesso a nova informação sobre os mais variados assuntos, entre outras coisas. Por 4,99 dólares por mês, os subscritores têm acesso a 7.000 comics e muitos mais conteúdos adicionados semanalmente.
Podem observar nesta página algumas amostras gratuitas da nova versão.
Philip Roth acredita que dentro de 25 anos, apenas uma minoria irá ler romances. O problema é o próprio livro enquanto objecto: “Ler um romance requer uma certa concentração e devoção à leitura. Se tu lês um romance em mais de duas semanas, não o estás a ler realmente”, diz o autor de Indignação, citado pelo Guardian. O autor acha que o livro não consegue competir com os ecrãs. Mas poderá estar enganado…
Segundo a edição online do Telegraph, os e-books estão a aumentar, por exemplo, o número de leitores nas bibliotecas. O empréstimo até tem piada e tudo. Os leitores podem aceder ao site da biblioteca a partir de casa, descarregar o e-book e depois de 14 dias o livrinho vai ao ar. Muito giro.
Faltam ainda dois meses para o Natal, mas os potenciais presentes já estão nas livrarias: Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra, de António Lobo Antunes, Caim de José Saramago, Fúria Divina de José Rodrigues dos Santos e 2666 de Roberto Bolaño. O Símbolo Perdido de Dan Brown é colocado à venda no dia 29 de Outubro. Fico preocupada. Que livros vão os portugueses comprar para dar no Natal? Os mesmos que compraram quase dois meses antes?
Leio agora os posts acumulados de vários blogs dedicados à literatura, depois de um interregno de uma semana e meia. Na maior parte deles, dos “principais”, como costumam dizer, encontro as mesmas notícias replicadas. Mal por mal, escolho apenas um e arrumo o assunto.
O resto do tempo online é utilizado para descobrir pérolas, como a melhor crítica que li a 2666 de Roberto Bolaño. Da mesma pena saiu outra que li com um prazer indescritível. É bom ter escritores e leitores como o David Soares na blogosfera.
acordo cedo e, enquanto preparo o pequeno-almoço, vejo que o colega do quarto ao lado me roubou subrepticiamente dois ovos para preparar um puré instantâneo. o outro acabou agora mesmo de utilizar o meu detergente para a máquina da roupa, mesmo debaixo do meu nariz. estupores. regresso ao quarto e enquanto bebo o café abro à sorte o contra a manhã burra do miguel-manso e leio este poema tailandês,
Casamento de Bangkok
“disse-me
aprendi o essencial de tailandês
para não me perder na rua
saber o que vou comer nos restaurantes
dizer-lhe que a amomas não o suficiente para
lhe explicar o porquêpor isso
aponto com o olhar as árvores do pomar
são o nosso pequeno resguardo
de belezaseguimos o perfume
ela sabe
depois penso que está na altura de mudar de casa.

Papei ontem Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício de Ryszard Kapuscinski. Não conseguiria descrever o intenso prazer que senti com a melhor conversa sobre o bom jornalismo que já presenciei. Diz Kapuscinski,
Creio que para fazer bom jornalismo devemos ser, antes de mais, homens bons ou mulheres boas: seres humanos bons. Pessoas más não podem ser bons jornalistas.
(…)
Neste sentido, a única maneira de fazer bem o nosso trabalho é desaparecermos, esquecermo-nos da nossa existência. Nós só existimos como indivíduos que existem pelos outros, que partilham os seus problemas e tentam resolvê-los ou, pelo menos, descrevê-los.
(…)
Há muitos casos como este, mas era só para dizer que no nosso ofício, muitas vezes, temos de prestar mais atenção ao que se passa simplesmente à nossa volta – que faz, exactamente, parte dos imponderabilia -, do que ao que se diz na rádio, na televisão ou nas conferências de imprensa.
Para além do jornalismo, também encontramos conversas de outras águas. Vamos por ali, escutamos Kapuscinski, até chegarmos a outra entrevista digna de memorização: a conversa entre o repórter polaco e John Berger. Diz Kapuscinski,
Habitualmente ignoramo-las. Vemos dezenas delas por dia. E não nos damos conta de que para compreender as fotografias e a literatura é necessário uma participação activa. Não conseguimos compreender as fotografias se não nos colocarmos no lugar de criadores activos.
E Berger,
Quando Kapuscinski e eu falamos de atenção, é justamente porque viramos as costas ao ecrã e procuramos regressar à vida real e aqui exige-se atenção. Às vezes é muito difícil dar essa atenção. Não é uma atenção de natureza sentimental, de modo nenhum. É aquela que as crianças aprendem na brincadeira, antes de a escola intervir fazendo com que desaprendam.
Para um jornalista, ler Kapuscinski não é um dever. É uma obrigação.

Li Donald and the…, escrito por Peter F. Neumeyer e ilustrado por Edward Gorey, e rapidamente morri de amor pelas ilustrações do segundo. É possível resistir a uma personagem destas?

É obrigatório ler este excelente ensaio sobre o Edward Gorey publicado na Orgia Literária.
Foi publicado um conto inédito de Roberto Bolaño na revista 60 Watts. O escritor chileno não teria mais de 20 anos quando escreveu El Contorno del Ojo. Bolaño concorreu com o conto ao I Premio Alfambra de Cuentos, em 1983. Não venceu, mas conseguiu o 3º lugar.
El Contorno del Ojo está disponível aqui.
Sisters of Mercy, Some Kind of Stranger
Enquanto a massa coze, prezados leitores, coloco aqui a música da minha vida. O assunto é sério, portanto. O número de vezes que a ouvi é incontável e mesmo assim continua a arrepiar-me sempre que a volto a ouvir. Morro para ouvi-la e depois quando a oiço morro para que acabe depressa e me deixe em paz. O meu corpo entra em convulsão e dói-me tudo, tudinho, desde o dedo mindinho até à alma. É ela, a tal, dá cabo de mim, e seria capaz de ouvi-la em repeat mode sem me cansar, mas isso, seria arriscado demais…
(…)
Come here I think you’re beautiful
My door is open wide
Some kind of angel come inside
(…)
O ultimo livro de Lázaro Covadlo, editado pela Livros de Areia, andava-me a perseguir desde o momento em que saiu. Naquela tarde disse “chega”, sentei-me e resolvi o assunto. É, sem qualquer dúvida, o melhor conjunto de contos que li nos últimos tempos. O negrume, a secura e a ironia do autor de Buracos Negros transportam-nos para um mundo burtoniano, onde as personagens estão pintadas de preto e tudo parece triste – irresistível, portanto. Franz Kafka, Boris Vian, Edgar Allen Poe e Lewis Carroll são alguns autores que estão presentes nos contos de Covadlo.
O conto Mundosonho, por exemplo, está povoado de personagens de Alice no País das Maravilhas. A estrutura de Ninguém Desaparece Completamente remete-nos imediatamente para O Processo de Franz Kafka e por aí poderíamos continuar. Em Herren Krisna, Fisher Kampf, Golden Raviolli, Covadlo serve-nos uma estória de canibalismo: os membros de uma família comem-se uns aos outros. É macabro. E, por isso, lê-se com um prazer acrescido.
Lázaro Covadlo nasceu na Argentina em 1937 e vive em Espanha desde 1975. No mercado português podem encontrar mais um título deste autor – Criaturas da Noite - com a chancela da Livros de Areia.
«Hoje, se queremos perceber para onde estamos a ir», sustenta Kapuscinski, «não é necessário olhar para a política, mas sim para a arte. Sempre foi a arte que indicou, com grande antecipação e clareza, o rumo que o mundo ia tomando e as grandes transformações que se preparavam. É mais útil entrar num museu do que falar com cem políticos de profissão.»
Ryszard Kapuscinski, in Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício. Lisboa: Relógio D’Água.

Numa altura em que a bolañomia chegou a Portugal, é importante guardar alguma distância, tentando perceber como é que surgiu esta súbita consagração do autor de 2666. O La Nacion apresenta uma reportagem interessante, onde dá voz a Sarah Pollack, uma professora universitária que escreveu um ensaio sobre a construção do mito Bolaño nos Estados Unidos. Ficam algumas passagens,
Lo digo porque la idea central del trabajo de Sarah es que, detrás de la construcción del mito Bolaño, no sólo hubo un operativo de marketing editorial sino también una redefinición de la imagen de la cultura y la literatura latinoamericanas que el establishment cultural estadounidense ahora le está vendiendo a su público (…)
El genio creativo de Bolaño, su atractiva biografía, su experiencia personal en el golpe de Pinochet, la calificación de algunas de sus obras como novelas de las dictaduras del Cono Sur y su muerte en 2003 a causa de una falla hepática a sus cincuenta años de edad contribuyeron a “producir” la figura del autor para la recepción y el consumo en Estados Unidos, incluso antes de que se propagara la lectura de sus obras.
Quizá no haya sido yo el único sorprendido cuando, al abrir la edición norteamericana de Los detectives salvajes, me encontré con una foto del autor que no conocía. Es el Bolaño posadolescente, con la cabellera larga y el bigotito, la pinta de hippie o del joven contestatario de la época de los infrarrealistas, y no el Bolaño que escribió los libros que conocemos (…) No se me ocurrió pensar entonces, pues el libro apenas salía del horno y comenzaba el revuelo en los medios de Nueva York, que esa evocación nostálgica de la contracultura rebelde de los años 60 y 70 era parte de una bien afinada estrategia.
No fue casual entonces que en la mayoría de artículos sobre el perfil del autor se hiciera énfasis en los episodios de su juventud tumultuosa: su decisión de salirse de la escuela secundaria y convertirse en poeta; su odisea terrestre de México a Chile, donde fue encarcelado luego del golpe de Estado; la formación del fracasado movimiento infrarrealista con el poeta Mario Santiago; su existencia itinerante en Europa; sus empleos eventuales como cuidador de camping y lavaplatos; una supuesta adicción a las drogas y su súbita muerte.
Estos episodios iconoclastas eran demasiado tentadores como para que no fueran convertidos en una tragedia de proporciones míticas: he aquí alguien que vivió los ideales de su juventud hasta las últimas consecuencias. O como rezaba el titular de uno de esos artículos: ¡Descubran al Kurt Cobain de la literatura latinoamericana!
Ningún periodista estadounidense resaltó el hecho, advierte Sarah Pollack, de que Los detectives salvajes y la mayor parte de la obra en prosa de Bolaño “fueron escritos cuando éste era un sobrio y reposado hombre de familia”, durante los últimos diez años de su vida, y un excelente padre, agregaría yo, cuya mayor preocupacion eran sus hijos, y que si al final de su vida tuvo una amante, lo hizo en el más conservador estilo latinoamericano, sin atentar contra la conservación de su familia. “Bolaño aparece ante el lector (estadounidense), incluso antes de que uno abra la primera página de la novela, como una mezcla entre los beats y Arthur Rimbaud, con su vida convertida ya en materia de leyenda.”
Lo cierto es que Bolaño siempre fue un contestatario; nunca un subversivo, ni un revolucionario involucrado en movimientos políticos, ni tampoco un escritor maldito (como sí lo fue su mentor de aquellos primeros años, el poeta veracruzano Orlando Guillén, pero ésa es otra historia que espera ser contada), sino un contestatario, tal como lo define la Real Academia: “Que polemiza, se opone o protesta contra algo establecido”.
Stephen Elliott resolveu criar uma corrente de leitura com o seu livro, The Adderall Diaries, antes de o colocar à venda nas livrarias. Fez-me lembrar as correntes que se organizam no Bookcrossing. O método é simples: depois de eu ler uma cópia do livro, envio-o para a pessoa seguinte através do correio e assim sucessivamente. 400 pessoas inscreveram-se neste anel de leitura, acabando por dar uma visibilidade muito grande ao livro nos próprios media que seguiram esta aventura.
O resto da experiência pode ser lido aqui, na voz do próprio autor.

Um cheirinho, vá lá,
Part-time
Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.
- José Miguel Silva
Pelo caminho ainda tropecei no Cordão de Leitura, organizado pela nova editora, a Objectiva. Evento desengraçadinho, onde se contavam pelos dedos os que liam. Já para contar os suspiros que o José Eduardo Agualusa arrancava das senhoras não chegavam os dedos das mãos e dos pés.
Capítulos Soltos é o nome da nova livraria que neste momento já está de portas abertas em Braga. Pelas 17h00 será assinalada a abertura com um brinde aos presentes.

Tenho muita pena de não poder visitar a Capítulos Soltos nos próximos dias. Mas por lá passarei… Muita amizade e estima unem-me ao rosto que está por detrás deste projecto, o Bruno Malheiro. Fiquem com a morada: Rua de Santo André, 63-65.



