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O absurdo continuará a dar-vos música, mesmo não sendo domingo

September 29, 2009


Sisters of Mercy, Some Kind of Stranger

Enquanto a massa coze, prezados leitores, coloco aqui a música da minha vida. O assunto é sério, portanto. O número de vezes que a ouvi é incontável e mesmo assim continua a arrepiar-me sempre que a volto a ouvir. Morro para ouvi-la e depois quando a oiço morro para que acabe depressa e me deixe em paz. O meu corpo entra em convulsão e dói-me tudo, tudinho, desde o dedo mindinho até à alma. É ela, a tal, dá cabo de mim, e seria capaz de ouvi-la em repeat mode sem me cansar, mas isso, seria arriscado demais…

(…)
Come here I think you’re beautiful
My door is open wide
Some kind of angel come inside

(…)

Pequeno apontamento sobre “Buracos Negros” de Lázaro Covadlo

September 28, 2009

buracosnegrosO ultimo livro de Lázaro Covadlo, editado pela Livros de Areia, andava-me a perseguir desde o momento em que saiu. Naquela tarde disse “chega”, sentei-me e resolvi o assunto. É, sem qualquer dúvida, o melhor conjunto de contos que li nos últimos tempos. O negrume, a secura e a ironia do autor de Buracos Negros transportam-nos para um mundo burtoniano, onde as personagens estão pintadas de preto e tudo parece triste – irresistível, portanto. Franz Kafka, Boris Vian, Edgar Allen Poe e Lewis Carroll são alguns autores que estão presentes nos contos de Covadlo.

O conto Mundosonho, por exemplo, está povoado de personagens de Alice no País das Maravilhas. A estrutura de Ninguém Desaparece Completamente remete-nos imediatamente para O Processo de Franz Kafka e por aí poderíamos continuar. Em Herren Krisna, Fisher Kampf, Golden Raviolli, Covadlo serve-nos uma estória de canibalismo: os membros de uma família comem-se uns aos outros. É macabro. E, por isso, lê-se com um prazer acrescido.

Lázaro Covadlo nasceu na Argentina em 1937 e vive em Espanha desde 1975. No mercado português podem encontrar mais um título deste autor – Criaturas da Noite –  com a chancela da Livros de Areia.

Bom dia

September 25, 2009

«Hoje, se queremos perceber para onde estamos a ir», sustenta Kapuscinski, «não é necessário olhar para a política, mas sim para a arte. Sempre foi a arte que indicou, com grande antecipação e clareza, o rumo que o mundo ia tomando e as grandes transformações que se preparavam. É mais útil entrar num museu do que falar com cem políticos de profissão.»

Ryszard Kapuscinski, in Os Cínicos Não Servem Para Este Ofício. Lisboa: Relógio D’Água.

Como se construiu o Kurt Cobain da literatura latino-americana

September 23, 2009

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Numa altura em que a bolañomia chegou a Portugal, é importante guardar alguma distância, tentando perceber como é que surgiu esta súbita consagração do autor de 2666. O La Nacion apresenta uma reportagem interessante, onde dá voz a Sarah Pollack, uma professora universitária que escreveu um ensaio sobre a construção do mito Bolaño nos Estados Unidos. Ficam algumas passagens,

Lo digo porque la idea central del trabajo de Sarah es que, detrás de la construcción del mito Bolaño, no sólo hubo un operativo de marketing editorial sino también una redefinición de la imagen de la cultura y la literatura latinoamericanas que el establishment cultural estadounidense ahora le está vendiendo a su público (…)

El genio creativo de Bolaño, su atractiva biografía, su experiencia personal en el golpe de Pinochet, la calificación de algunas de sus obras como novelas de las dictaduras del Cono Sur y su muerte en 2003 a causa de una falla hepática a sus cincuenta años de edad contribuyeron a “producir” la figura del autor para la recepción y el consumo en Estados Unidos, incluso antes de que se propagara la lectura de sus obras.

Quizá no haya sido yo el único sorprendido cuando, al abrir la edición norteamericana de Los detectives salvajes, me encontré con una foto del autor que no conocía. Es el Bolaño posadolescente, con la cabellera larga y el bigotito, la pinta de hippie o del joven contestatario de la época de los infrarrealistas, y no el Bolaño que escribió los libros que conocemos (…) No se me ocurrió pensar entonces, pues el libro apenas salía del horno y comenzaba el revuelo en los medios de Nueva York, que esa evocación nostálgica de la contracultura rebelde de los años 60 y 70 era parte de una bien afinada estrategia.

No fue casual entonces que en la mayoría de artículos sobre el perfil del autor se hiciera énfasis en los episodios de su juventud tumultuosa: su decisión de salirse de la escuela secundaria y convertirse en poeta; su odisea terrestre de México a Chile, donde fue encarcelado luego del golpe de Estado; la formación del fracasado movimiento infrarrealista con el poeta Mario Santiago; su existencia itinerante en Europa; sus empleos eventuales como cuidador de camping y lavaplatos; una supuesta adicción a las drogas y su súbita muerte.

Estos episodios iconoclastas eran demasiado tentadores como para que no fueran convertidos en una tragedia de proporciones míticas: he aquí alguien que vivió los ideales de su juventud hasta las últimas consecuencias. O como rezaba el titular de uno de esos artículos: ¡Descubran al Kurt Cobain de la literatura latinoamericana!

Ningún periodista estadounidense resaltó el hecho, advierte Sarah Pollack, de que Los detectives salvajes y la mayor parte de la obra en prosa de Bolaño “fueron escritos cuando éste era un sobrio y reposado hombre de familia”, durante los últimos diez años de su vida, y un excelente padre, agregaría yo, cuya mayor preocupacion eran sus hijos, y que si al final de su vida tuvo una amante, lo hizo en el más conservador estilo latinoamericano, sin atentar contra la conservación de su familia. “Bolaño aparece ante el lector (estadounidense), incluso antes de que uno abra la primera página de la novela, como una mezcla entre los beats y Arthur Rimbaud, con su vida convertida ya en materia de leyenda.”

Lo cierto es que Bolaño siempre fue un contestatario; nunca un subversivo, ni un revolucionario involucrado en movimientos políticos, ni tampoco un escritor maldito (como sí lo fue su mentor de aquellos primeros años, el poeta veracruzano Orlando Guillén, pero ésa es otra historia que espera ser contada), sino un contestatario, tal como lo define la Real Academia: “Que polemiza, se opone o protesta contra algo establecido”.

Um anel de leitura

September 22, 2009

Stephen Elliott resolveu criar uma corrente de leitura com o seu livro, The Adderall Diaries, antes de o colocar à venda nas livrarias. Fez-me lembrar as correntes que se organizam no Bookcrossing. O método é  simples: depois de eu ler uma cópia do livro, envio-o para a pessoa seguinte através do correio e assim sucessivamente. 400 pessoas inscreveram-se neste anel de leitura, acabando por dar uma visibilidade muito grande ao livro nos próprios media que seguiram esta aventura.

O resto da experiência pode ser lido aqui, na voz do próprio autor.

Fui às comprinhas. Tra lá lá lá

September 19, 2009

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Um cheirinho, vá lá,

Part-time
Durante muitos anos trabalhei em part-time
na Livraria Bakunine, ao Carregal.
Não foram os anos mais felizes da minha vida,
pois o amor, o ranço, a solidão, a verdade
é que ficava muitas horas encostado à montra
a ver se tu entravas perguntando se eu tinha
segredos, sebes, aluviões ou a ignorância
da morte. Dir-te-ia que sim. Mas tu,
Gata Borralheira, só querias saber de astrologia,
de puericultura, de pronto a vestir para o outono
da alma. Raios te partam, rapariga,
como podia eu amar-te, tão estúpida eras.
– José Miguel Silva

Pelo caminho ainda tropecei no Cordão de Leitura, organizado pela nova editora, a Objectiva. Evento desengraçadinho, onde se contavam pelos dedos os que liam. Já para contar os suspiros que o José Eduardo Agualusa arrancava das senhoras não chegavam os dedos das mãos e dos pés.

É nova. É a Capítulos Soltos.

September 19, 2009

Capítulos Soltos é o nome da nova livraria que neste momento já está de portas abertas em Braga. Pelas 17h00 será assinalada a abertura com um brinde aos presentes.

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Tenho muita pena de não poder visitar a Capítulos Soltos nos próximos dias. Mas por lá passarei… Muita amizade e estima unem-me ao rosto que está por detrás deste projecto, o Bruno Malheiro. Fiquem com a morada: Rua de Santo André, 63-65.

Pequeno apontamento sobre as Cores da Infâmia de Albert Cossery

September 18, 2009

112Este ano li mais um do Cossery – As Cores da Infâmia. Faltam-me 5. Qualquer dia chateio-me e compro os restantes, ao contrário do que escrevi aqui. Gosto demasiadamente deste sacana preguiçoso para ir doseando a sua leitura.

Esperamos 15 anos até o escritor egípcio nos apresentar a sua última obra, As Cores da Infâmia, depois de ter publicado em 1984 Uma Ambição no Deserto. Um manancial precioso, carregado da mais pura ironia, onde os vencedores são sempre os mendigos que têm como ocupação o roubo. O protagonista é Ossama, um ladrão astucioso que se veste como os ricos. Num dos seus trabalhos, rouba a carteira a um promotor imobiliário. Lá encontra uma carta que prova a responsabilidade do promotor no desabamento de um prédio que causou a morte a vários inquilinos. O centro da intriga é este. Depois é só rir com o mundo caótico apresentado por este escritor egípcio, onde o roubo ilegal dos pobres é mais legitimo que o dos poderosos.

Leiam lá alguns excertos,

– É isso mesmo que te reprovo. Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com a cobertura do governo. Não te inculquei a minha arte para te tornares um ladrão de cinema cuja única preocupação é não desagradar ao seu público” (p. 72)

“Nenhum regime político impedirá de roubar. Estou certo de que sempre poderei exercer a minha profissão. E esta certeza não existe em nenhuma outra categoria de trabalhadores. Alguma vez viste um ladrão no desemprego? (p. 87)

Nenhum escritor me arranca mais sorrisos do que este maldito.

O exílio literário catalã

September 16, 2009

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TopobioGrafies de l’exili català é um site que nos permite permite seguir o percurso de escritores catalães exilados e aceder à respectiva documentação. Patrocinado pelo portal ‘Lletra de la Universitat Oberta de Catalunya’,  o projecto utiliza os recursos do Youtube e do Google Maps, permitindo aos internautas colocarem conteúdos. Rodoreda, Calders ou Carner são alguns autores prestigiados que já podemos encontrar nesta iniciativa.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert, na internet

September 15, 2009

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Les Manuscrits de Madame Bovary reúne na internet a versão definitiva da obra de Flaubert, incluindo os excertos que o autor prescindiu (ou teve de prescindir devido à censura). O site apresenta-nos ainda uma mão cheia de imagens que ilustravam os originais de Flaubert. 130 voluntários estão a ajudar a construir este espaço dedicado a um dos maiores escritores de sempre.

Misty Circus de Victoria Francés

September 14, 2009

Hoje li o novo livro da pintora e ilustradora Victoria Francés. Provavelmente já repararam numas agendas que andam por aí a circular com as capas ilustradas por esta artista espanhola. O universo é claramente gótico. Na wikipédia, lê-se que “Goethe, Edgar Allan Poe, Baudelaire e Bram Stoker” são alguns dos autores que encontramos nas suas ilustrações.

Misty Circus é o primeiro tomo de seis volumes da nova série de Francés. Lê-se em 10 minutos. Sasha é um menino que perde a mãe e acaba por ser internado num orfanato, depois do pai o abandonar. Não aguenta muito tempo e rapidamente parte para o bosque onde se torna amigo de um gato. Os dois descobrem um circo no meio do bosque e são contratados pelo enigmático dono. É uma estória muito triste, onde o preto predomina e mesmo nos momentos bons sentimos uma melancolia e angústia permanentes. Está bom de ver que o mais importante são mesmo as ilustrações.

sasha

josh

ludovico

Para quem aprecia este tipo de ilustração, Misty Circus é uma óptima compra. É esperar pelos próximos volumes para vermos para onde caminhará Sasha, num mundo repleto de sombras.

O poder de um tweet

September 14, 2009

Depois do actor britânico David Eagleman ter escrito um tweet sobre o livro de Stephen Fry, Sum: Forty Tales from the Afterlives, as vendas dispararam na Amazon, colocando-o em 2º lugar no top dos livros mais vendidos, noticia o Guardian.

“You will not read a more dazzling book this year than David Eagleman’s ‘Sum’. If you read it and aren’t enchanted I will eat 40 hats”, escreveu ontem Eagleman na sua página do twitter. O actor tem mais de 750,000 seguidores.

Música para o domingo (II)

September 13, 2009

Eu também tenho sido atingida pela onde de beatlemania que por aí se propaga com a edição remasterizada de todos os álbuns dos quatro de Liverpool.  Por cá, tem passado o “novo” Rubber Soul, ainda que o meu coração permaneça com o Revolver. É bonito, dá para dançar, ele amava-a agora já não, e depois volta a amar-me e depois deixa-me outra vez, e por aí continua.

No El País podem ler um artigo interessante sobre a posição de algumas comunidades que odeiam os Beatles. “Yo creo que siempre resultan o bien simples e infantiles, o pesados y pomposos; siempre son lo uno o lo otro”, diz o locutor de rádio britânico Robert Elms, acrescentando que a seu modo de ver, os Beatles “convirtieron algo que una vez fue sexy y crudo, en algo completamente desprovisto de alma, una música de patio de recreo para canturrear”.

No site Suck My Beatles atiram mais umas achas para a fogueira: “No puedes escapar de los Beatles, No te queda más remedio que te gusten porque te han lavado el cerebro. Eres una billetera abierta y una cabeza hueca malgastando tu tiempo y tu dinero en un abismo sin fondo de avaricia empresarial y estupideces entusiastas”.

Eu não quero escapar aos Beatles. E vocês?

Mas quem disse que não queriamos ler sozinhos?

September 12, 2009

Bronson e Asheley Merryman vão lançar na próxima semana o livro NurtureShock: New Thinking About Children. Mas quem são estes dois autores? Não interessa. O motivo da notícia é muito simples: os leitores vão poder ler numa versão digital os três primeiros capítulos do livro  e deixar lá as suas sugestões.

No Guardian podemos ler as palavras de Caroline Vanderlip, chefe-executiva da companhia que vai possibilitar este exercício: “Nós acreditamos que a comunidade pode enriquecer o original, como as notas de rodapé ou nas margens enriqueceram os livros desde sempre”. “Trata-se aqui de uma anotação colaborativa”, acrescenta.

Philip Jones, editor do theBookseller.com, acredita que este exercício vai ajudar a construir uma comunidade de leitores, deitando por terra a solidão que está inerente à leitura.

Isto conduziu-me para este pequeno artigo no El País. Diz Fernando Savater: “O verdadeiro perigo, a incógnita real, é se o escritor continuará a ser o autor dos seus livros, a controlar o que quer que apareça, e por isso, alguém que mantém uma relação especial com os seus leitores”.

E agora? Não estaremos a tentar, cada vez mais, meter o nariz onde não somos chamados?

Segundo rascunho sobre “2666”, de Roberto Bolaño

September 11, 2009

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Depois de uma primeira parte dedicada às deambulações de Jean-Claude Pelletier, Piero Morini, Manuel Espinoza e Liz Norton em busca de um escritor desaparecido, Bolaño coloca-nos na cena principal apenas uma personagem: Óscar Amalfitano, um professor de literatura chileno que reside em Santa Teresa. Os quatro críticos conheceram Óscar quando voaram até ao México, seguindo uma pista em relação ao paradeiro do autor alemão. Aqui, descobrem que Óscar traduziu um dos livro de Archimboldi e rapidamente o tomam por um dos seus. Um estalar de dedos e Pelletier, Espinoza, Morini e Norton desaparecem completamente na segunda parte, como se nunca tivessem sequer existido.

Seguimos Amalfitano que dedica uma boa parte do capítulo a evocar a  sua ex-mulher. Lola deixou-o muito cedo, acabando por morrer mais tarde com SIDA. É ele que cria sozinho a sua filha, Rosa, e à medida que ela cresce e se vai tornando cada vez mais bela começa a preocupar-se com os assassinatos que ocorrem em Santa Teresa.

Bolaño conduz-nos cegamente. O leitor está num quarto escuro e enquanto tenta descobrir a porta principal, entra em vários recantos. É nestes espaços que o autor aproveita para escrever sobre tudo, o medo, a angústia, a literatura, o cinema, etc. E a porta principal? Onde está? O que nos reserva? De vez em quando temos um vislumbre, um pequeno apontamento, perdido no meio da narrativa, sobre os estranhos crimes que estão a ocorrer em Santa Teresa. Mas é isso que interessa para aqui? É do assassino que andamos à procura ou das próprias personagens?

Uma das minhas passagens predilectas da segunda parte é quando o protagonista pendura um livro numa corda de secar roupa,

Se me ocurrió de repente, dijo Amalfitano, la idea es de Duchamp, dejar un libro de geometría colgado a la intemperie para ver si aprende cuatro cosas de la vida real.

“A Metamorfose”, de Kafka, ilustrada por Luis Scafati

September 10, 2009

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Mais, aqui.

Eu também ando com a “2666fobia”

September 9, 2009

O Bibliotecário de Babel enumera um conjunto de medos que aparecem no 2666 de Roberto Bolaño. Por último acrescenta a “2666fobia: medo de não acabar um certo livro de Roberto Bolaño”.

Eu também ando com esse medo. Leio em casa, no trabalho, nas viagens de autocarro, na casa-de-banho, enquanto cozinho e almoço, enquanto espero pela sessão de cinema, enquanto o sono não vem e nada. Nunca mais o acabo. Leio, leio e leio e continuo a ler. Não estou certa de o vir a acabar alguma vez. Entretanto, deixo-vos uma passagem sobre o cinema digna de registo,

Las únicas salas de cine que cumplían una función, dijo Charly Cruz, eran las viejas ¿las recuerdas?, esos teatros enormes que cuando se apagaban las luces a uno se le encogía el corazón. Esas salas estaban bien, eran los verdaderos cines, lo más parecido a una iglesia, techos altísimos, grandes cortinas rojo granate, columnas, pasillos con viejas alfombras desgastadas, palcos, localidades de platea y galería o gallinero, edificios construídos en los años en los que el cine todavía era una experiencia religiosa, cotidiana y sin embargo religiosa, y que poco a poco fueron demolidos para edificar bancos o supermercados o multicines. Hoy, le dijo Charly Cruz, apenas sobreviven unos pocos, hoy todos los cines son multicines, con pantallas pequeñas, espacio reducido, butacas comodísimas. En el espacio de una vieja sala de verdad caben siete salas reducidas de un multicine. O diez. O quince, depende. Y ya no hay experiencia abismal, no existe el vértigo antes del inicio de una película, ya nadie se siente solo en el interior de un multicine. Después, según recordaba Fate, se puso a hablar sobre el fin de lo sagrado. El fin había empezado en alguna parte, a Charly Cruz le daba lo mismo, tal vez en las iglesias, cuando los curas dejaron de lado la misa en latín, o en las familias, cuando los padres abandonaron (aterrorizados, créeme, brother) a las madres. Pronto el fin de lo sagrado llegó al cine. Derribaron los grandes cines y construyeron cajas inmundas llamadas multicines, cines prácticos, cines funcionales. Las catedrales cayeron bajo la bola de acero de los equipos de demolición. Hasta que alguien inventó el vídeo. Un televisor no es lo mismo que una pantalla de cine. La sala de tu casa no es lo mismo que una vieja platea casi infinita. Pero, si uno obvserva con cuidado, es lo que más se le parece. En primer lugar porque mediante el vídeo puedes ver tú solo una película. Cierras las ventanas de tu casa y enciendes la tele. Metes el vídeo y te sientas en un sillón. Primer requisito: estar solo. La casa puede ser grande o pequeña, pero si no hay nadie más toda casa, por pequeña que sea, de alguna manera se agranda. Segundo requisito: preparar el momento, es decir, alquilar la película, comprar la bebida que vas a beber, la botana que vas a comer, determinar la hora en que te vas a sentar delante de tu tele. Tercer requisito: no contestar al teléfono, ignorar el timbre de la puerta, estar dispuesto a pasar una hora y media o dos horas o una hora o cuarentaicinco minutos en la más completa y rigurosa soledad. Cuarto requisito: tener a mano el mando a distancia por si quieres ver más de una vez una escena. Y eso es todo. A partir de ese momento todo depende de la película y de ti. Si todo va bien, que no siempre va bien, uno está otra vez en presencia de lo sagrado. Uno mete su cabeza en en el interior de su propio pecho y abre los ojos y mira, silabeó Charly Cruz.

Roberto Bolaño, in 2666. Barcelona: Editorial Anagrama, 2004

Para onde caminham os blogs literários?

September 8, 2009

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Numa reportagem intitulada “Who will write the future?“, publicada no site denverpost.com, David Milofsky tenta descobrir os próximos passos dos blogs dedicados à literatura. Com a queda de vendas de jornais em todo o mundo, os blogs literários estão preparados para substituirem o espaço dedicado à literatura nos jornais? O público validará a crítica de um blogger literário, como validaria a que saísse num jornal de referência?  Não poderá este desaparecimento do espaço dedicado à cultura nos media representar um desafio para os blogs literários? Mas e dinheiro? Irá a publicidade migrar para os blogs? Muitas são as questões por responder…

According to Mark Athitakis, whose American Fiction Notes is one of the most intelligent spots in the blogosphere, “Litblogs are being forced to change, but I don’t think it’s because they anticipate paywalls. There’s simply less material out there. Arts sections have been hit hard as newspapers cut costs, so more and more litbloggers are writing their own reviews and conducting more interviews. According to Weinman, most of the best litblogs are linking less and producing much more original content.

Mark Athitakis tem razão. Para quê repetir a enchurrada de links que meia dúzia de bons blogs literários portugueses nos apresentam diariamente? Eles chegam para cumprir esse dever. De vocês, bloggers literários, queremos ouvir outras cantigas.

Pequeno apontamento sobre o Diabo e a Mosca Azul do Franklin Bardin

September 7, 2009

Bardin Um leitor que não conhece Franklin Bardin, depois de ler algumas palavras do prefácio, não resiste muito tempo e morde o anzol. E a língua sangra. Veremos se valerá a pena ou não. Estamos em Nova Iorque, em 1946, quando Ellen regressa casa, juntamente com o seu marido Basil, depois de passar dois anos internada numa clínica psiquiátrica. Ellen é uma artista reconhecida mundialmente. Toca cravo, um instrumento que tem a forma de um pequeno piano de cauda. É um daqueles génios típicos, que vivem aprisionados entre a música e a própria loucura. O passado de Ellen é revelado à medida que a narrativa avança e vamos descobrindo que também poderá ser uma criminosa. Ou será antes a vítima de um crime? “Jimmy crack corn and i don’t care/ Jimmy crack corn and i don’t care” é a música que acompanha a narrativa e passamos a ouvir atrás da orelha.  Depois de ler a apresentação de Ana Teresa Pereira, criam-se expectativas demasiado elevadas. Se um dos objectivos de um policial é criar suspense, “Que o Diabo Leve a Mosca Azul” provoca algum no inicio. Mas à medida que se avança, o mistério vai desaparecendo e a leitura torna-se penosa porque o escritor estende o novelo até ao limite. Estamos na cabeça de Ellen, dentro da sua própria loucura, e ouvimos os seus pensamentos durante toda a estória. Não viria mal ao mundo se pensasse várias coisas, mas anda sempre à volta do mesmo e nós só queremos que o pesadelo da protagonista acabe. É bom sentir alguma angústia e desespero enquanto acompanhamos Ellen. Só não queríamos é que a viagem demorasse tanto tempo.

Cold Tea With Milk? yes please

September 7, 2009

Já anda por cá desde Julho mas só agora a descobri: Cold Tea With Milk é o nome do blog da minha prima, Raquel Sousa, dos Sousas, portanto. Muita boa música (tirando uma ou outra asneira, como Black Sabbath, que se perdoa), literatura e outras coisas que tais, andam de mãos dadas com alguém que nasceu para criar. É muito cool a minha prima. O pessoal acha-lhe graça. Eu também. Não percam.