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‘E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias’

May 22, 2008

A versão impressa do jornal de alunos de Comunicação Social da Universidade do Minho (GACSUM) – ComUM – conheceu ontem a última edição que pode ser consultada aqui. É um orgulho enorme ter participado neste projecto. Fica aqui, a minha última crítica publicada no ComUM,

E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias – John Berger

É inevitável que um título poético como “E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias” prenda imediatamente o leitor que se sentirá obrigado a ler, no mínimo, as primeiras paginas. O nome do autor, praticamente desconhecido em Portugal, não ajuda muito. A entrada faz-se, portanto, em bicos de pé para a queda não ser grande.

Publicado em 1984, “And Our Faces, My Heart, Brief as Photos” é uma compilação de poesia e prosa. O autor salta entre temas que vão desde a pintura à linguagem, passando pelo amor. A paixão de Berger pela arte e vida é algo que percorre todo o livro, transportando o leitor para uma atmosfera intimista.

Entre vários textos possíveis de destaque, aponto os dedicados a Van Gogh e Caravaggio. Para o escritor inglês, Van Gogh tenta nas suas pinturas aproximar-se da realidade, ainda que tenha consciência da existência de um “ecrã de clichés”: “As cores, o clima mediterrânico, o sol, eram para ele veículos que conduziam à realidade; não eram nunca objectos de admiração por si mesmos” (p. 84). O autor compara os quadros de Van Gogh a raios laser: “Não ficam à espera de receber, procuram para encontrar, e o que atravessam não é tanto o espaço vazio mas o acto de uma realização produtiva, a própria produção do mundo” (p. 87)

Já Caravaggio é o pintor preferido de John Berger porque ao contrário dos outros pintores maneiristas da época, Caravaggio não pintava apenas o seu meio social para dar a ver aos outros, mas tinha uma “visão por dentro”, inscrita nele. O uso da luz e sombra nas suas pinturas tem para o pintor barroco um significado pessoal profundo, ligado aos seus desejos e ao seu instinto de sobrevivência. As telas de Caravaggio são compostas apenas por indivíduos que vivem quase encostados uns aos outros, coexistindo num espaço exíguo. O desejo sexual também está presente em quase todos os quadros pintados por Caravaggio.

“E os Nossos Rostos, Meu Amor, Fugazes como Fotografias” é um livro que se lê de uma assentada. John Berger é um escritor que mereceria mais traduções em Portugal. Enquanto não chegam, restam-nos as palavras lapidares e ternas deste livro poético: “O momento da verdade é agora. E há-de ser a poesia, mais do que a prosa, a recebê-la. Se a prosa provém da confiança, a poesia dirige-se à ferida imediata” (p. 107)

[Imagem: Saint Matthew and the Angel, Caravaggio (1602)]

Nota: A edição pertence à Quasi Edições

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