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No dia em que deixar de o ouvir, não voltarei a ler poesia da mesma maneira

May 20, 2009

Na minha primeira casa lisboeta arrendada, aos sábados de manhã, o som apuradíssimo de uma guitarra costumava entrar-me pela janela da cozinha, transportando-me invariavelmente para o universo Pink Floydiano. À saudade, mas que saudade da música que saía daquela guitarra e me coloria o dia.

Final de Outono e um começo de Inverno. Eu, provavelmente, cruzei-me com o músico(a) misterioso(a), sem nunca saber que era ele(a), mas sempre a pensar: serás tu?

No meu último dia na minha primeira (e esperemos última) casa de anões, praguejei os cinco andares que durante 4 meses me endureceram as pernas e despedi-me do músico que me animou muitos dias, sem nunca saber quem era e porque subitamente deixou de tocar tantas vezes. Mas despedi-me dele. E ele sabe-o ou ela sabe-o.

Não me mudei para outra casa de anões, não senhor, quem cai uma, não cai duas. E como seria muito complicado estar à procura de um apartamento onde morasse também um músico, escolhi um que tinha uma árvore plantada a escassos metros do meu quarto. Morar com uma árvore que todos os dias lutará mais um pouco para entrar no quarto com os seus longos ramos e ocupar o espaço que é dela bastou-me para apaziguar a perda da música Pink Floydiana.

Tal não é o meu espanto, quando no dia seguinte à  primeira noite no quarto onde uma árvore se prepara para entrar, oiço o som de um piano – belo, belo, belo.

Não me custou nada conciliar a presença de uma árvore e de um pianista que não pára de tocar. E, desta vez, eu sei que é um ele que gosta de se levantar cedo e esperar por mim para começarmos: ele no piano, eu na poesia. Ele não sabe que eu o oiço, nem sabe que costuma esperar que eu acabe o meu pequeno-almoço para ler alguns poemas antes de começar a viver plenamente mais um dia. Também não sabe que no dia em que eu deixar de ouvir o piano, não voltarei a ler poesia da mesma maneira.

5 Comments leave one →
  1. May 21, 2009 1:53 pm

    quero ser teu vizinho😛

  2. May 21, 2009 6:20 pm

    e tens coragem de viver ao lado de uma árvore que vai tentar entrar na tua casa?

  3. May 21, 2009 7:36 pm

    Humm…que bonito!!! Há lugar para mais 3 pessoas e um cão??? ehehehehe

  4. May 21, 2009 8:55 pm

    Há sempre lugar em London, 25😉

Trackbacks

  1. Nunca gostei do Chapeleiro Louco « o absurdo

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