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sobre o amor (VII)

February 18, 2009

Não resisto a republicar o excerto de um livro que li no blog Pó dos Livros. É tão bonito que quase dá vontade de ir a correr comprar o livro.

O melhor do namoro, claro, é o ridículo. Vocês dois no telefone:
– Desliga você.
– Não, desliga você.
– Você.
– Você.
– Então vamos desligar juntos.
– Tá. Conta até três.
– Um…Dois…Dois e meio…
Ridículo agora, porque na hora não era não. Na hora nem os apelidos secretos que vocês tinham um para o outro, lembra?, eram ridículos. Ronron. Suzuca. Alcizanzão. Surusuzuca. Gongonha. (Gongonha!) Mamosa. Purupupuca…
Não havia coisa melhor do que passar tardes inteiras no sofá, olho no olho, dizendo.
– As dondozeira ama os dondonzeiro?
– Ama.
– Mas os dondonzeiro ama as dondonzeira mais do que as dondonzeira ama os dondonzeiro.
– Na-na-não. As dondonzeira ama os dondonzeiro mais do que etc..
E, entremeando o diálogo, longos beijos, profundos beijos, beijos mais do que de língua, beijos de amígdalas, beijos catetéticos. Tardes inteiras. Confesse: ridículo só porque nunca mais.
Depois do ridículo, o melhor do namoro são as brigas. Quem diz que nunca, como quem não quer nada, arquitetou um encontro casual com a ex ou o ex só para ver se ela ou ele está com alguém, ou para fingir que não vê, ou para ver e ignorar, ou para dar um abano amistoso querendo dizer que ela ou ele agora significa tão pouco que podem até ser amigos, está mentindo. Ah, está mentindo.
E melhor do que as brigas são as reconciliações. Beijos ainda mais profundos, apelidos ainda mais lamentáveis, vistos de longe. A gente brigava mesmo era para se reconciliar depois, lembra? Oito entre dez namorados transam pela primeira vez fazendo as pazes. Não estou inventando. O IBGE tem as estatísticas.

Luís Fernando Veríssimo in Sexo na cabeça. Lisboa: Dom Quixote

3 Comments leave one →
  1. February 18, 2009 12:37 pm

    Lool… Por acaso ofereceram-me esse livro há uns anos e nunca lhe dei atenção. E mal eu sabia que andava a perder pérolas como essas.

  2. February 18, 2009 12:39 pm

    O título e a capa do livro não são muito convidativos. Mas isto de “os dondonzeiro ama as dondonzeira mais do que as dondonzeira ama os dondonzeiro” é enternecedor😀

  3. February 18, 2009 7:45 pm

    Ia fazer o mesmo. Já não faço🙂 Delicioso mesmo. E eu que só conheci o senhor no Correntes (conhecia apenas o pai)… *

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