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palco para os poetas? só da vida

April 7, 2008

A propósito da quase-ausência de referências na televisão ao Dia Mundial da Poesia, recebi o seguinte email de um amigo que, com a sua autorização, passo a transcrever:

A propósito do Dia da Poesia, só me ocorre o que o poeta Joaquim Manuel Magalhães dizia acerca de similares coisas: a poesia não se dá com espectáculos. É claro que ele se referia a leituras públicas de poemas, mas, para o caso, vai dar ao mesmo. Se calhar, é elitismo da minha parte (espero que não!), mas creio que quase tudo o que se faz em prol da poesia, a título público (lá está: às tantas, é esse o problema), digamos assim, só serve para piorar as coisas. A poesia é para ser lida, sentida, a cortar-nos de cima a baixo, a estragar-nos os nervos, a descompor-nos a vidinha e as certezas, a refazer e desfazer um canto que nos faz desde que um dia alguém decidiu fixar umas palavras para dizer esse rio que se extingue e é a vida. H.

Esta reflexão levou-me a recordar uma emissão recente (16 de Março) da Câmara Clara, onde Bernard Pivot, crítico e divulgador cultural da televisão francesa, explicava por que razão é “impossível falar de poesia em televisão”. Na altura não tomei notas, mas lembro-me de Pivot dizer que os poetas (os verdadeiros) não são gente para a televisão. Que a sua extrema sensibilidade e delicadeza não lhes permite estar à vontade em frente às câmaras. Para além de ser muito difícil falar de poesia.

Posto isto, sou levada a concordar com a ideia de que a poesia não é para a televisão. O palco (não o da vida) não é para o poeta.

5 Comments leave one →
  1. April 7, 2008 3:55 pm

    essa generalização não será perigosa? (como todas.) não estou nada certo dessa personagem romântica do poeta. da insegurança, sim: não é com um água vai que se resolvem as tripas que pomos cá fora.

  2. April 9, 2008 10:24 pm

    demorei a responder-te porque ainda não sei a resposta… por enquanto, acredito no romantismo do poeta. e quero continuar. mas como não convivo com poetas (quer dizer, convivo, mas não dos que editam) não sei como são… apenas tenho ideias mentais que o tempo acabará por me destruir. porque tudo o que é idealizado não dura muito tempo.

  3. April 10, 2008 3:22 am

    penso que temos de encarar os poetas como encaramos os trolhas: há quem tenha muito jeito à partida para fazer cimento e quem se esforce diariamente para melhorar o condimento torto; no entanto, o primeiro, com o empenho do segundo, será um dos trolhas mais competentes do mundo e o segundo, às tantas, deveria ter sido contabilista (apesar de ter chegado a ser um trolha de mão cheia).

    depois de percebermos isto, que são pessoas esses tais de poetas, teremos de os assumir como tal. são como as cebolas, têm camadas. e o nosso papel, de leitores, na contracena, é descobrir a que profundidade vai a faca.

  4. April 10, 2008 8:37 am

    é verdade. mas o que está aqui em causa não é descobrir se os poetas são ou não pessoas. claro que são, com as suas virtudes e defeitos. não serão com certeza Deuses do Olimpo.

    a dificuldade e insegurança dos poetas na televisão poderão advir da própria arte. para mim, é difícil falar de poesia. e acredito que para eles também.

  5. April 10, 2008 2:41 pm

    exactamente. é tão difícil para eles, como para outro qualquer. só que eles não podem mesmo enfiar o pé na argola. (bah!, que argumentos parvos. vou calar-me.)

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