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“temos de continuar nesta senda porque é aquilo que resta”

March 29, 2008

dsc01409.jpgNuma noite de frio e chuva, a conversa à volta dos livros levou a melhor: Paulo Samuel, editor da Caixotim, pôs o amor aos livros nas palavras e o tempo passou, sem pedir licença. O estaleiro cultural Velha-a-Branca, em Braga, acolheu na quinta-feira o editor obscuro que trata os livros com afecto e não como meros produtos comerciais.

Paulo Samuel começou por dividir o livro em três eixos: livro enquanto signo; livro enquanto produto social e livro enquanto objecto de arte e culto. Na opinião do editor portuense perdeu-se a noção de que um livro deveria ser tratado à parte e não como um mero produto comercial.

“A maior parte das editoras portuguesas estava nas mãos de pessoas que tinham uma relação afectiva com o livro, como a Guimarães Editores, a Morais Editora, A. M. Pereira”, conta. Ao contrário do que acontece hoje, onde a maior parte das pessoas que trabalha nas editoras vêm das áreas de economia e marketing.

O editor da Caixotim acha que já devíamos ter uma compreensão lexical que nos permitisse ler um autor do século XV como lemos um contemporâneo. Mas o “afunilamento” cultural em que vivemos leva-nos a criar uma empatia com uma determinada escrita. “Um leitor de Agustina dificilmente lê Lobo Antunes porque as fórmulas de escrita utilizadas pelos dois escritores são diferentes. Familiarizámo-nos com um determinado código e se o estilo muda já não nos reconhecemos”, explica.

Depois de uma passagem pela Editora ASA e Lello Editores, Paulo Samuel fundou, em 2001, as “Edições Caixotim” (editora e livraria) que se dedica sobretudo à publicação de autores clássicos portugueses, ensaios de literatura e roteiros literários. E como todos os projectos pequenos (não no tamanho, mas na fraca exposição mediática), a Caixotim tem personalidade própria e vincada: não edita autores estrangeiros, ainda coze os livros e recusa-se a estar à venda nos supermercados.

O tempo passou. A conversa terminou. Não sem antes Paulo Samuel desabafar que “hoje poucas coisas são sérias”. E tem toda a razão, mas “temos de continuar nesta senda porque é aquilo que resta”, diz ele e subscrevo eu. O relógio bateu a meia-noite. Mas o serão de amor à literatura aqueceu o corpo que voltou imunizado contra o frio da noite.
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