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a flor da poesia contemporânea

October 1, 2007

Eu que não sei escrever sobre poesia vou tentar escrever sobre poesia. Como já aqui referi, nunca me aventurei muito para lá de Fernando Pessoa e Walt Whitman. Mas depois de ouvir quem sabe, comecei a descobrir novos poetas. Primeiro foi Jorge Gomes Miranda que me encantou, depois Manuel de Freitas. Mais o segundo que o primeiro.

Andava eu a pesquisar na internet quando encontrei este texto de Pedro Mexia, publicado em 2004 no Diário de Notícias,

«O Coração de Sábado à Noite é um dos três livros de poemas que Manuel de Freitas publicou em 2004. Essa produtividade causa um sentimento de reincidência ou repetição. Freitas traça na sua poesia um detalhado roteiro obsessivo, com variações mínimas. A evocação predominante, bem sabemos, diz respeito a noites, copos e charros. Das duas uma ou consideramos isso a afirmação de um universo pessoal, ou criticamos a redundância e a previsibilidade».

Infelizmente ainda não li O coração de Sábado à Noite mas já me passaram por muitas madrugadas de sábado a Jukebox, A Flor dos Terramotos, Beau Séjour e [Sic]. Manuel de Freitas é noite, copos, charros, tabernas, solidão e pouco mais. Mas neste pouco mais cabe o mundo, a vida, a morte, a certeza de ler alguém que disse tudo aquilo que gostaria de dizer. O espaço pode ser sempre a taberna, a companhia o vinho ou o charro, mas esta repetição não impede o poeta de falar sobre a vida, o desespero, a inquietação que nos anima a toda a hora. Há pouca luz ao fundo do tunel. E eu gosto disso. Mas enquanto não aprendo ou ganho coragem para tentar escrever sobre poesia, deixo-vos um poema que falará muito melhor do que eu.

Quando sós à boleia do crepúsculo

Não mais a literatura, os seus
fúteis e imperiosos desígnios
– julgamos dizer, insistindo
numa ourivesaria do terror
e em gestos que sabem o quanto
chegam tarde. Quando sós,
à boleia do crepúsculo, dizemos
coisas assim, mentimos com
os dentes todos que não temos.

E a mentira (a literatura)
é ainda a improvável derrota
de que não nos salvaremos
nunca. Tão igual à vida, portanto:
pouso o copo, recupero o fôlego,
fumo uma silepse. Sei que vou morrer.

E isso que – talvez – nos diz
é uma evidência que escurece
(tivemos por amigo o desconforto).

Quanto ao mais, vamos andando.
Casados ou sozinhos. Mortos.
@Manuel de Freitas

6 Comments leave one →
  1. October 1, 2007 8:25 pm

    Muy humilde y generoso a la vez. Gracias por compartir con sencillez, la poesía en lengua portuguesa; es maravillosa. Congratulaciones.

  2. October 2, 2007 10:05 pm

    Realmente Sol Seppy parece música feita por anjos.
    E sobre um post do seu arquivo, você já leu “O Ofício de Viver”, do Pavese?

  3. October 3, 2007 9:33 am

    Ouvir quem sabe🙂 Eu também sinto isso quando o ouço falar sobre poesia.

  4. October 3, 2007 8:52 pm

    Bem, Fernado Pessoa e Walt Whitman são, sem dúvida, os meus preferidos, mas e que tal Eugénio de Andrade? J.Luís Borges?
    IM

  5. October 8, 2007 4:17 pm

    muito bom. outra vez o absurdo.

  6. May 8, 2008 6:11 pm

    mt bom..
    adoro!!
    e recomendo

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