naquela noite embebedei-me de literatura
enquanto esperava pelo autocarro, dei conversa a uma cigana. era domingo, não estava ninguém na central para além de nós e, por isso, era preciso matar o tempo. contou-me da vida: o primeiro filho veio aos 13 anos e agora, com 20, já ia no terceiro. senti uma grande empatia por esta menina-grande. infelizmente o autocarro chegou, ajudei-a a enfiar o carro de bébé dentro da carreira e afastei-me, para o fundo dos meus pensamentos.
depois cheguei a Braga e foi hora de descer a passos curtos e trémulos a Avenida da Liberdade, em direcção à Feira do Livro. fazia calor e a mochila que transportava às costas era pesada: cinco livros do Gonçalo M. Tavares (GMT) para autografar. pelo caminho encontrei um africano que se dirigiu a mim. ouvi-o: estava a trabalhar em Braga há dois meses mas era de Portimão; ainda não tinha conhecido nenhuma rapariga, eu era a primeira e queria combinar um encontro mas para isso precisava do meu número de telemóvel. claro que não o conseguiu mas gostei de o ouvir e apesar da típica argumentação do engate, de uma ou outra incongruência, senti-lhe uma infindável solidão e desamparo social.
mas era hora de continuar a caminhar. retomo os passos curtos e trémulos quando reparo que mesmo à minha frente seguia o GMT, de mochila preta às costas e camisa cinzenta. o meu olhar rapidamente o fixou intensamente. e ele reparou, mesmo caminhando à minha frente. logo diminuiu a velocidade de forma a ser ultrapassado por mim e observar quem o observava. depois de o passar comecei eu, divertidamente, a deitar uns olhares à retaguarda. estava a ser seguida pelo GMT e achava montes de piada à coisa. depois, infelizmente, entrou numa pastelaria e eu continuei.
assisti à conferência da tarde onde o GMT era um dos oradores convidados. como tinha de o apanhar no fim, suportei uma autêntica tortura auditiva proferida por um moedor profissional de ouvidos. no fim, lá fui ter com o GMT, pedi para me autografar os livros, meti conversa e consegui uma mini-entrevista apaixonante no fim.
ai que coisas bonitas ele me disse, dos livros serem objectos sensíveis e de necessitarem de toda a nossa atenção. da necessidade de ter um lápis enquanto se lê e sublinhar incessantemente. cheguei a casa doente de livros e tive de me embebedar de literatura até altas horas da noite.


lol pensei o k gmt pensei que era o meridiano de greenwich
😉
gostei especialmente da parte do africano.