Um leitor de e-books? Não, obrigada.

2009 June 27
by Eduarda Sousa

Ia tendo um biribaque quando li que o José Mário Silva precisava de um leitor de e-books. Lá para o meio explicou a necessidade deste gadget, deixando-me mais descansada,

Para fazer download das obras que me interessam mas não faço questão de ter nas prateleiras, claro. Mas sobretudo para evitar um crime ecológico: a impressão, em resmas de folhas A4, dos ficheiros pdf com que as editoras revelam aos críticos literários os romances que só vão para a gráfica umas semanas depois. [continuar a ler]

Já Miguel Esteves Cardoso, na coluna que assina diariamente no Público, provocou-me  mesmo o biribaque com o seguinte texto:

Já tenho o meu leitor de ebooks, um BeBook, há quase um ano. Ao fim do segundo dia já não passava sem ele. É leve mas leva 4 GB de livros, revistas e textos – o suficiente para 40 mil horas de leitura furiosa. Só é preciso recarregar a pilha de cinco em cinco dias. Nunca aquece nem pisca.
Como o ecrã é preto sobre cinzento lê-se facilmente à luz do sol mais brilhante. E pode-se ler quanto se quiser sem cansar os olhos. Tudo coisas que os portáteis e os telemóveis não conseguem fazer. O BeBook não serve para nada senão para ler.
É como ler fotocópias a preto e branco em meia página A4. Borra as fotografias, mas o tipo de letra pode-se substituir e aumentar. Não é bonito nem fofo nem cheira a tinta. Mas lê-se muito bem. Só é preciso gostar de ler. Quando se fica minimamente absorto esquece-se o que se tem na mão. E é essa a ideia de ler, ou não?
[retirado daqui]

Não, não é a ideia. Ler  implica o esquecimento do que nos rodeia porque para além do que estamos a ler, temos nas mãos o objecto livro que nos transporta para esse mundo distante da literatura. Ler num e-book não pode ser a mesma coisa, não deveria ser a mesma coisa. Um e-book serviria apenas para ler os artigos que vou encontrando na internet e que a maior parte das vezes acabo por imprimir, contribuindo para a poluição do ambiente. Para ler um livro? Nao, obrigada.

11 Responses leave one →
  1. 2009 June 27

    Vou ser chata e discordar contigo. Eu gosto dos livros pelo seu conteúdo, não pelo papel. É claro que também prefiro livros impressos, é sempre outra coisa, Mas sinceramente, os ebooks trazem muitas vantagens, não só à carteira e na questão do armazenamento, mas especial pelo facto de NÃO usarem papel. Estamos a poupar árvores, a ajudar o ambiente e bem, a poupar espaço nas nossas prateleiras também. Eu acho que sim, este e o futuro dos livros, e ainda bem.
    Porque convenhamos, se o melhor dos livros fosse o papel, eu gostava que me explicassem se gostam de ter uma calhamaço de 500 páginas, capa dura, sem uma única letra impressa no papel. O que interessa é a história! As palavras as emoções que transmite. Não o facto de eu estar a folhear as páginas (embora saiba bem).
    O maior problema dos ebooks, parece agora já estar resolvido, e esse problema era o facto de ler num ecrã cansar as vistas. Com os leitores de ebooks isso parece já não ser um dilema.
    Esta é claro, somente a minha opinião, mas acho algo surrealista dizerem que um ebook faz perder o sentido da história. A história continua a mesma, seja em papel ou no ecrã.

  2. 2009 June 27
    Miguel Esteves Cardoso permalink

    Viva, Eduarda!

    Confesso que uso o BeBook mais para ler artigos (e consultar dicionários) mas também já estou farto de ler livros inteiros que lá pus.

    Sou muito, muito viciado em livros, em papel e tinta – como eram o meu pai e o meu avô que acumularam bibliotecas imensas e deliciosas – mas, como sou guloso e gosto é de ler, aproveito o que há.

    Se é um livro interessante, só penso em virar a página. Esqueço-me de onde estou e do que seguro. Era isso que eu queria dizer.

    Mas, sim, claro, tem razão: não é (e nunca será) a mesma coisa.

    Os livros dão mais prazer.

    Mas é um prazer gastronómico e sensual – o prazer da leitura (que é o maior) está no ler, esteja onde estiver escrito.

    Até ver…!

  3. 2009 June 27
    Jonas permalink

    Também deve ter berrado muita gente quando ficou para trás o papiro.

    Querer fixá-la apenas no papel é ofensivo à escrita, porquê colocar-lhe barreiras?

    Só porque vivemos numa época que não declinou completamente o esplendor de Gutemberg? Isso não nos legitima que amputemos à escrita a faculdade de se adaptar a necessidades diferentes das de ontem, das de anteontem, das de há seis séculos atrás. As necessidades de hoje, agora mesmo, já são diferentes.

    O afecto à pasta de papel seca vai sujeitar-nos a um arcaísmo?

    Cuidado, temos responsabilidades para com as gerações seguintes, que terão necessidades maiores de registar ideias, de as comunicar, de aceder à informação acumulada de todos os tempos, e o veículo da escrita tem de evoluir com a espécie.

    Livros em papel? Sim.

    Leitores de eBooks? Com certeza que sim.

    Com amizade,

    Jonas

    (O que é isto???? “serviria-me”???)

  4. 2009 June 28

    Anacnunes,

    Não partilho da mesma opinião. Uma das maiores vantagens do e-book prende-se mesmo com a questão ambiental e aqui reconheço todo o seu mérito. O que me interessa mais é obviamente a história mas, pelo menos para mim, o prazer de ler está também associado ao objecto livro. Acho que é mais uma questão sentimental porque ambas concordamos nas vantagens que os e-books apresentam.

    Miguel Esteves Cardoso,

    Será mesmo você? (gosto de imaginar que seja, mesmo sendo alguém que resolveu usurpar o seu nome e brincar um bocadinho). Se é para ler mais dicionários e artigos deixa-me mais descansada. Prefiro imaginar o Miguel Esteves Cardoso no seu restaurante lisboeta preferido com livros do que com um e-book nas mãos.

    Jonas,

    Não poderia estar mais de acordo consigo. Atenção: eu reconheço as potencialidades dos e-books, acho que devem existir, assim como os livros de papel. Não concebo é ler um livro numa plataforma digital. (embora me imagine a ler artigos e outras coisas que tais).

  5. 2009 June 28

    Nunca te aconteceu surpreederes uma frase a faíscar dentro da tua cabeça, repicando a tua memória e questionando-te com insistência: “onde é que eu li isto?”.

    Poderá ter sido numa revista. Se calhar, num blog. Agora que o meu telemóvel tem acesso à internet, é possível que tenha sido através do esguio aparelho que essa ideia formidável – e cuja autoria me atormenta – tenha entrado na minha vida. Onde li esta notícia? No Absurdo? No Bibliotecário? Num jornal diário? Num anúncio de rua? Poderei ter lido aquilo no meu e-reader?

    Que frustração. Porque afinal ligamos tanto ao conteúdo que nos esquecemos das formas, nós os da geração privilegiada e atormentada pelas fontes fragmentárias. Nenhum formato vai desaparecer ou ser suplantado. Mas acredito que, franqueado um certo limiar de conforto, não daremos pela falta de um ou outro suporte simplesmente porque desde há muito que nos habituámos à busca instintiva do conteúdo. E também o livro, nosso campeão, objecto, fetiche, bem democraticamente acessível, não é senão um imberbe guerreiro na vida da humanidade letrada.

  6. 2009 June 29

    Reharl,

    sim, andamos todos à procura de conteúdo e quase nos esquecemos da plataforma em que o recebemos. não sei muito bem para onde vamos. só espero e desejo que o livro se mantenha um guerreiro e deixe crescer a barba :D ninguém o derrotará.

  7. 2009 June 29

    Vai manter-se, sim senhor. Apesar daquele palavrório todo eu tenho a fraqueza de coleccionador e de bibliotecário poeirento. Tenho a impressão que todas aquelas capas comunicam entre si. Muitas vezes só para dizerem: olha lá, quando é que me lês? Que impertinentes.

    Esqueci-me de assinar acima. Não gosto do nome que o wordpress me dá.

    -António

  8. 2009 June 29

    “Muitas vezes só para dizerem: olha lá, quando é que me lês? Que impertinentes” ;)

  9. 2009 July 5
    Francisco permalink

    Que post tão parvo. Não foi referida uma unica diferença entre livro e livro virtual mas no entanto odeias os últimos. Estupidez. O que interessa é o conteúdo e não o formato, como já alguém comentou. São puristas que atrasam a evolução.

  10. 2009 July 5

    Caro Francisco,

    Onde é que eu escrevi que odiava os livros virtuais? Eu até reconheci o valor dos e-books. Quer-me parecer que não tem nada que fazer e vem para aqui aparvalhar. Estupidez.

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  1. É um mp3? É uma consola? Não! É o E-book! « - ART’E MANHAS -

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