José Saramago escreve literatura Fantástica?

2008 October 29

Já tinha ouvido dizer que José Saramago escrevia literatura de género Fantástico (ler aqui, por exemplo). É curioso que o nosso Prémio Nobel de Literatura nunca apareça associado a este tipo de literatura. Mas o mistério, neste caso, tem uma solução muito simples: José Saramago não suporta que o associem a este género. Não sei se é um boato, não o posso comprovar, é mais um daqueles “ouvi-dizer-que” ele acha o Fantástico puro entretenimento e que ele, ao contrário dos outros, escreve romances a sério. Não anda por aí a brincar, portanto.

A simples ideia de uma cegueira repentina que se abate sobre uma cidade (Ensaio sobre a Cegueira) parece-me pertencer ao género Fantástico. É algo que deriva da imaginação e que se supõe que nunca vai acontecer.

O Fantástico não goza, infelizmente, de muita respeitabilidade junto dos intelectuais portugueses, o que é péssimo. Haverá alguém que coloque em causa a grandeza e importância de Tolkien?

18 Responses leave one →
  1. 2008 October 29

    Esta é uma questão deveras complicada… Se é verdade que Saramago não escreve romances no sentido tradicional, também não o vejo a escrever coisas do estilo de Tolkien. Verdade que a ideia do Ensaio sobre a Cegueira se afasta da realidade, talvez até da comum ficção, mas ainda está muito longe de coisas como Lord of the Rings ou Eragon… por isso, na minha opinião, Saramago não escreve no campo do Fantástico. É mais uma sobre-utilização dos princípios do romance. Mas isto não passa da minha visão sobre o assunto. A verdade é que quando escrevi sobre o Ensaio sobre a Cegueira lá no blog, também me vi aflito sobre o sítio onde o enfiar…

    Cheers

  2. 2008 October 29

    Creio que seria Realismo Fantástico, assim como García Márquez, por exemplo. Digo isso não só por “Ensaio sobre a Cegueira”, mas por boa parte de sua obra. Em “A Jangada de Pedra”, a península Ibérica se separa da Europa; em “Memorial do Convento” um padre cria uma máquina para voar movida pela “vontade das pessoas”; em “Intermitências da Morte”, a Morte é personificada e decide não mais matar pessoas…

  3. 2008 October 29

    Leonardo Pastor, you got a point there.

  4. 2008 October 29

    Não sou grande conhecedora da obra de Saramago para poder afirmar se é ou não Realismo Fantástico. De qualquer das formas, o Realismo Fantástico é quase uma vertente do Fantástico, ou seja, incorpora elementos do Fantástico. E pelos temas dos seus romances parece-me que ele é definitivamente um escritor do Fantástico.

    O que não consigo compreender é o desdém do Saramago por este género de literatura.

  5. 2008 October 30

    Acho que estamos aqui a falar do realismo mágico. E compreendendo o ponto de vista do Leonardo, parecem-me bem distantes os estilos e universos de Márquez e Saramago. A coisa com Saramago (como diriam os ingleses) é que ele consegue ser realista, romanesco, fantástico e mais umas quantas coisas.

    Se o homem desdenha o género fantástico, é coisa que desconheço. Mas sei que gosta de Garcia Márquez. E o Lobo Antunes também ;)

  6. 2008 October 30

    parece-me uma questão de consequência (o desdém). tal como o Lobo Antunes, veja-se (ao minuto quatro). embora este penda para o indivíduo e o Saramago para o colectivo. escrita consequente, parece-me que é isto. qualquer que seja o nome do género.

  7. 2008 October 30

    Não sou grande entendedora de estilos literários mas como até aprecio o género fantástico, quando conheci a história do “Ensaio sobre a cegueira” (não li o livro) surpreendeu-me logo exactamente por parecer um argumento que se pode enquadrar bem naquele género. E afinal até não seria inédito.
    Quanto ao desdém pelo fantástico, é uma “vergonha” que parece ser normalmente partilhada pelos escritores portugueses de renome, enquanto género considerado “menor”, talvez associado ao lado mais comercial, popular…?

  8. 2008 October 31
    Anonymous permalink

    É incrível a soberba desse senhor.

    Não conheço nenhuma mulher com raios X, como a Blimunda do Memorial do Convento. E o humor com que é escrito não fica atrás do do humor García Marquez.

  9. 2008 October 31

    Desculpe, não reparei que estava como ”anónimo”.

  10. 2008 November 2
    Alexnadra permalink

    Conheço imensa gente que coloca em causa a grandeza de Tolkien. Mas geralmente por motivos que não se relacionam com os motivos que levam intelectuais portugueses a fugir do género fantástico como «o diabo da cruz». Enquanto uns acham a escrita de Tolkien maçuda outros parecem detestar o género de um modo estranho, considerando-o uma espécie de género «maldito», talvez por influência do cinema.

  11. 2008 November 2

    Não percebi onde é que o cinema influencia, cara Alexnadra.

  12. 2008 December 27
    Alexandra permalink

    O cinema influencia na construção do género na mentalidade das pessoas. Se os filmes de FC seguem determinadas tendências, é natural que quem os veja fique com determinada ideia acerca do género. Ao ponto de have quem, após visionamento de filmes de FC, seja avesso ao género ao ponto de dizer que Saramago não é FC só porque apreciou a leitura de obras de Saramago, mas não apreciou o visionamento de filmes de FC.

  13. 2009 January 12
    Gustavo permalink

    Ao meu ver, e deixando de lado todo e qualquer nome referente a algum estilo literário, a escrita de Saramago é algo que fica entre uma história de índole romanesca, como disse o Helder Beja, e alguns acontecimentos impossíveis e puramente imaginários que não chegam a ultrapassar um nível de importância na história para que possam ser considerados “fantásticos”.
    E porque digo eu que não são assim tão importantes? Para já porque, no estilo Fantástico, todo o cenário é épico, tudo é mesmo fantástico; enquanto que em Saramago tudo é uma história, muitas vezes de carácter algo historico mesmo, como é o caso de “Memorial do Convento”; história essa sendo o principal e contando apenas com pequenos ajustes “imaginários”.
    Depois, o mais importante, Saramago não escreve para contar histórias. Ele escreve para dar “lições” através das suas histórias. Através do seu romance e dos seus pormenores mágicos ele pode oferecer uma mensagem, uma moral. Essas pequenas fantasias são apenas o seu meio de transporte para chegar a estas mensagens. São o seu modo de escrever: colocá-las como elementos naturais dentro de um romance normal.
    É assim que ele consegue passar a sua mensagem política, social, filosófica, humanitária.
    Por exemplo, em “Ensaio sobre a Cegueira”, Saramago não queria, de maneira nenhuma contar uma história em que todos ficassem cegos de repente…nada disso! Ele apenas se serviu dessa história, dessa fantasia, para nos dizer que todos estamos cegos e que todos temos de abrir os olhos para o mundo e para a vida. É esta a moral desta história. Por isso não acho que ele possa ser considerado escritor de fantasia, de modo nenhum. É antes um escritor/intelectual/filósofo que transmite as suas ideias através dos seus romances.

  14. 2009 January 20

    A definição de “Fantástico” é tão vaga, acho que Saramago bem pode ser colocado dentro desta. No entanto, o seu estilo, defeitos e pontos fortes aparte, é tão individual que foge muito de categorização.

  15. 2009 January 23

    Concordo com o último argumento da amiga Alexandra, o cinema leva parte da culpa sim, mas mais do que o cinema.

    A meu ver, há duas definições (abrangentes) para o Fantástico:

    1 – A primeira (e mais antiga) delas vem da linha de E.T.A Hoffman, Allan Poe (que não é o gigante apenas do conto policial) e da crítica feita pelo formalista russo Tzvetán Todorov (em “O Fantástico”). Antes de Todorov, o francês Louis Vax já havia se detido seriamente sobre o tema (em “A Arte e a Literatura Fantásticas”), mas é com Todorov, definitivamente, que a idéia parece ganhar maior representatividade e, afinal, corpo (a teoria de Vax é bastante rarefeita).

    Essa linha evoluiu ao longo do tempo e abraçou também os escritores latino-americanos do chamado realismo fantástico, ou realismo mágico (do qual fazem parte não só Garcia Marquez como Jorge Luís Borges e outros escritores que se tornaram universais). Selma Calasans Rodrigues, teórica brasileira contemporânea, relaciona esse movimento latino-americano da literatura – que ela chama de realismo maravilhoso- e a teoria todoroviana do fantástico e dos seus vizinhos: o absurdo e o maravilhoso.

    E continua evoluindo. Cito entre seus atualizadores o compositor, escritor e crítico brasileiro Bráulio Tavares, que possui editadas três antologias imperdíveis sobre o tema: “Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros”, “Contos fantásticos no labirinto de Borges”, e “Freud e o estranho: contos fantásticos do inconsciente”. Excelentes coletâneas brilhantemente prefaciadas.

    2 – E há uma classificação da indústria (para mim, mais americana impossível). O fantástico, para esta classificação, seria um gênero maior que abraçaria Fantasia (como o já citado Tolkien), a Ficção Científica (termo que, aliás, surgiu nos Estados Unidos) e o Horror (como Stephen King). Entre outros.

    Essa lógica de compartimentação da indústria serve tanto para o cinema quanto para a literatura. O cinema de gênero surgiu nos Estados Unidos, se não me falha a memória, na década de 30, quando eles começaram a “clonar” obras originais e produzi-las em série, com pequenas modificações. Assim, se basearam no cinema expressionista alemão para criar tanto o gênero terror/horror quanto, em partes, a ficção científica. Curioso notar que, na mesma década, ganhava fôlego um tipo de literatura barata conhecida como Pulp Fiction, que é onde se originaria o termo ficção científica e de onde saíram alguns dos melhores escritores de ficção científica e horror (Isaac Asimov e Howard Philips Lovecraft entre eles).

    À indústria interessa esse tipo de compartimentação: ajuda a vender, inclusive a vender muita coisa parecida – presume-se que se você gosta de uma obra de um gênero, haveria de gostar de todas as outras.

    Acredito que é isso que causa aversão a escritores como Saramago. Eles não querem ser associados a literatura comercial, impressa em pocket books e vendida a um par de dólares em lojas de conveniência e cujo objetivo maior, e muitas vezes o único, é por vezes o de entreter e pronto, distrair e tão só.

    Nessa defesa, alguns escritores são mais felizes com suas convicções, outros menos. Philip K. Dick nunca precisou negar a ficção científica e é ainda hoje muitíssimo celebrado (ainda que não no mesmo meio de Saramago). Ray Bradbury declarou que não gostaria de ser considerado ficção-científica, mas não conseguiu escapar à alcunha.

    Ao comentário do Gustavo, faço algumas observações:
    “Saramago não escreve para contar histórias. Ele escreve para dar “lições” através das suas histórias”
    Talvez (eu pensaria que ela faz os dois, do contrário apenas passaria sermões). Mas afinal, não é mesmo que Garcia Marques? Mas não nego: nesta linha “industrial” da nomenclatura, muito do que se faz é “não muito além de uma história” (e não pretendemos discutir aqui se há méritos ou desméritos nisso).

    “Por isso não acho que ele possa ser considerado escritor de fantasia, de modo nenhum.”
    Muito menos eu. Mas acredito que poderíamos colocá-lo, muito bem acomodado, na nomenclatura de raiz todoroviana, do fantástico erudito, intelectual, do fantástico não como fim último, mas como meio, como recurso, como instrumento.

    você diz
    “…alguns acontecimentos impossíveis e puramente imaginários que não chegam a ultrapassar um nível de importância na história para que possam ser considerados ‘fantásticos’”, mas afinal, nem no Horla (de Guy de Maupassant), nem no Homem de Areia (de Hoffmann), nem de qualquer outro clássico da literatura fantástica.

    Cabe, eu creio, levar ao esclarecimento dessas duas vertentes de nomenclatura – e aprofundar-se na primeira, para que não seja “usado” a favor do comércio da segunda. Se isso se popularizar, talvez chegue um dia em que um escritor do Calibre de José Saramago ache até bom ser associado com esse gênero fantástico.

    Espero ter contribuído sem ser demasiado cansativo ou pedante
    abraços

  16. 2009 February 3

    Luiz Falcão,

    Talvez, realmente, Saramago não goste de ser associado ao Fantástico justamente por se sentir inserido numa lógica comercial. É um ponto fraco de muitos escritores. Não há como fugir da indústria cultural; eles sobrevivem e podem ser lidos devido a sua existência.

    De qualquer forma, acho mais correto associar Saramago ao Realismo Fantástico.

  17. 2009 February 4

    É verdade, Leornardo

    se formos considerar as diversas classificações de “subgêneros”, Saramago está realmente mais próximo do Realismo Fantástico (ou realismo mágico).

    Minha exitação em chamá-lo simplesmente de realista fantástico é porque esse “movimento” literário tem origens e participantes relativamente bem definidos e claros. Em outras palavras, o realismo fantástico está um pouco “datado e localizado” na América Latina, entre escritores como Garcia Marquez, Julio Cortázar e Jorge Luís Borges. Mas deve ser mais um receio mesmo (já que minha interpretação está bastante baseada no livro da Selma Calasans Rodrigues)

    Há também uma outra literatura na Europa que chama minha atenção no sentido de ser próxima da “literatura fantástica”. São livros de Ítalo Calvino e Humberto Eco, em geral aproximados das novelas de cavalaria, creio, mas não somente.

    O Cavaleiro inexistente, Cidades Invisíveis, Baudolino e outros. Ainda assim, Saramago ainda estaria mais próximo ao Realismo Fantástico – ainda que algo me sussurre que cheirem diferente.

    obrigado pela resposta!

  18. 2009 December 9
    Helena permalink

    Interessante essa discussão. Já me perguntei a mesma coisa e cheguei à conclusão que sim, há identificação de Saramago com esse gênero (ou sub-gênero).

    Como Todorov, identifico esse universo realista fantástico como
    “um mundo que é exatamente o nosso, aquele que conhecemos, sem diabos, sílfides nem vampiros, [onde] produz-se um acontecimento que não pode ser explicado pelas leis deste mesmo mundo familiar. Aquele que o percebe deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto da imaginação e nesse caso as leis do mundo continuam a ser o que são; ou então o acontecimento realmente ocorreu, é parte integrante da realidade, mas nesse caso esta realidade é regida por leis desconhecidas para nós.” O que se adequa perfeitamente (como foi citado) a obras como Memorial do Convento, Ensaio.., Jangada, etc.

    Um estudo interessante sobre esse tema (uma dissertação de mestrado) está disponível em:
    http://www.fclar.unesp.br/posestlit/teses/tania_mara_antonietti_lopes.pdf

    http://www.gel.org.br/estudoslinguisticos/volumes/37/EL_V37N3_39.pdf

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