O Sobrinho de Wittgenstein, Thomas Bernhard

2008 July 18

O Sobrinho de Wittgenstein é uma obra de carácter autobiográfico, onde Thomas Bernhard descreve a amizade que o une a Paul Wittgenstein, sobrinho do famoso filósofo Ludwig Wittgenstein.

O relato começa quando Paul e Thomas se encontram internados no mesmo hospital de Viena. O primeiro está na unidade psiquiátrica, enquanto o narrador se encontra no serviço de doenças pulmonares, de onde lhe extraíram do tórax «um tumor do tamanho de um punho». O sobrinho do filósofo do ‘Tractatus logico-philosophicus’ teve de ser transportado, nos últimos 20 anos da sua vida, para o hospital psiquiátrico pelo menos duas vezes por ano, cada vez em condições piores e em espaços de tempo menores. Thomas Bernhard critica ferozmente os médicos e a medicina em geral por nunca terem sido capazes de classificar a doença mental do amigo.


Paul Wittgenstein é, à semelhança de muitos génios, um louco que rapidamente nos arrebata. Bernhard conta que tal como o tio Ludwig, Paul começou a dar, desde muito cedo, a sua riqueza porque pensava que assim conseguiria «espalhar os milhões sujos entre o povo limpo, para a salvação desse povo limpo e de si próprio» (p. 41). Foi a intensa paixão de Paul pela música que despoletou a amizade e simpatia de Bernhard que nunca tinha conhecido ninguém com uma tão grande «riqueza de pensamento», «espírito de observação» e «sensibilidade». Thomas acha que a loucura de Paul explodiu porque, ao contrário do tio, ele «reprimiu e não publicou a sua filosofia». No final, Thomas Bernhard acaba por confessar que se afastou de Paul, quando este já estava completamente louco, porque se queria afastar da morte.

O Sobrinho de Wittgenstein não é só sobre Paul Wittgenstein. É também (e talvez mais) sobre o próprio Thomas Bernhard que se socorre inúmeras vezes do amigo para poder falar livremente de si: «A diferença entre o Paul e eu consiste apenas no facto de o Paul se ter deixado dominar inteiramente pela sua loucura; ao passo que eu nunca pela minha, mesmo sendo tão grande como a dele, me deixei dominar inteiramente» (p. 35)

Os leitores de outros livros de Thomas Bernhard reconhecem rapidamente o estilo inconfundível do escritor austríaco: o texto parece que se apresenta como um longo e interminável parágrafo; não existem diálogos; o ritmo é vertiginoso; as ideias e palavras repetem-se sucessivamente. O escritor que já referiu que não gosta de enredos ou tramas, apresenta-nos personagens com uma grande carga emocional, que nos absorvem e por vezes até aniquilam, tal é o poder das descrições. O Sobrinho de Wittgenstein é um óptimo livro para ler numa tarde de chuva, em frente à lareira, com chávena de chá. De uma só vez. Não vá Thomas Bernhard pensar que não aguentamos os seus longos e deliciosos parágrafos.

[Texto publicado no Rascunho.net]

3 Responses leave one →
  1. 2008 July 21

    Parece ser um livro bastante interessante. :)

  2. 2008 August 26

    A minha iniciação ao Tomás. Depois li o Betão, as peças de teatro…e já acumula com outros livros por ler os 2 últimos romances dele publicados entre nós.

    Grande, grande Tomás.

  3. 2009 March 22
    Manabu permalink

    Paul Wittgenstein não era irmão de Ludwig Wittgenstein??

    Todas as biografias que lí de L. Wittgenstein assim como o filme sobre sua vida o retratam tendo como irmão o pianista Paul Wittgenstein.

    Abraços!

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